Herói nacional, repórter expõe dilema do Iraque

Família de ''arremessador de sapatos'' diz que ele detesta tanto ocupação americana quanto influência do Irã

Robert H. Reid, Associated Press, O Estadao de S.Paulo

16 de dezembro de 2008 | 00h00

O repórter da TV iraquiana que arremessou seus sapatos contra George W. Bush já havia sido seqüestrado por militantes e, numa outra ocasião, detido pelo Exército americano - o retrato de quem apanha dos dois lados, tão familiar para muitos iraquianos. Ao longo dos anos, Muntadhar al-Zaidi, um xiita solteiro de 28 anos, aprendeu a detestar tanto a ocupação americana quanto o que ele chama de ocupação "moral" iraniana, declarou sua família. A provocação de Zaidi, no domingo, transformou-o de repórter obscuro de uma pequena rede de televisão em um herói nacional para muitos iraquianos fartos dos quase seis anos de ocupação americana, mas também temerosos de que o Iraque se submeta à influência do Irã depois que os americanos partirem. Milhares de pessoas protestaram em Bagdá e outras cidades iraquianas pedindo a libertação de Zaidi. O ataque tornou-se o assunto mais comentado nos cafés, escritórios e até nas escolas - e foi debatido em boa parte do mundo árabe. No dia seguinte ao ataque contra Bush, os três irmãos e a irmã de Zaidi reuniram-se no apartamento do repórter, de um só quarto, localizado na zona oeste de Bagdá, decorado com um pôster de Che Guevara, figura célebre em todo o Oriente Médio. Seus parentes expressaram perplexidade diante dos atos de Zaidi e muita preocupação com o tratamento dispensado a ele enquanto estiver sob custódia. Mas também se mostraram orgulhos por vê-lo enfrentar um presidente americano tido por muitos iraquianos como o responsável pela destruição do seu país. "Por Alá, ele é um herói", disse a irmã dele, Umm Firas, enquanto assistia ao vídeo do ataque do irmão numa TV árabe. "Que Alá o proteja." A família insistiu que Zaidi agiu espontaneamente, talvez motivado pela agitação política que ele acompanha por causa de seu trabalho, somada a suas experiências pessoais com a violência e a ameaça de morte que milhões de iraquianos enfrentam diariamente. Zaidi entrou para a rede Al-Baghdadi em setembro de 2005 depois de se formar em comunicação pela Universidade de Bagdá. Dois anos mais tarde, ele foi seqüestrado por pistoleiros enquanto trabalhava num bairro sunita da zona norte da capital iraquiana. Ele foi solto ileso três dias mais tarde, depois que as emissoras iraquianas transmitiram apelos pedindo sua libertação. Na época, Zaidi disse a repórteres não saber quem o seqüestrou e nem o por quê. Mas sua família responsabilizou a Al-Qaeda e afirmou que nenhum resgate foi pago. Em janeiro, ele foi detido novamente, desta vez por soldados americanos, que revistaram seu apartamento, disse o irmão dele, Dhirgham. Ele foi solto no dia seguinte com um pedido de desculpas. Essas experiências ajudaram a moldar um profundo ressentimento direcionado ao mesmo tempo contra a presença militar americana no Iraque e contra a influência do Irã sobre a comunidade xiita iraquiana, dominada por clérigos. "Ele detesta a ocupação material americana tanto quanto odeia a ocupação moral iraniana", disse Dhirgham. "Quanto ao Irã, ele considera aquele regime o outro lado da moeda americana." Esse ponto de vista é amplamente compartilhado por iraquianos, incluindo muitos xiitas. No Iraque, discute-se que americanos e iranianos estariam travando indiretamente uma guerra, por meio de laços de Teerã com radicais xiitas. Zaidi pode ter sido motivado também por sua personalidade "exibicionista e orgulhosa", como descreveu um colega. "Ele sempre foi muito falastrão, arrogante e exibido", disse o jornalista curdo Zanko Ahmed, que participou de um curso com Zaidi no Líbano. "Ele tentava começar debates para mostrar que ninguém era tão esperto quanto ele." Ahmed recordou que Zaidi falava entusiasmado sobre o clérigo anti-EUA Muqtada al-Sadr, cujos seguidores organizaram protestos ontem para exigir a libertação do repórter. "Infelizmente, ele não aprendeu nada durante o curso no Líbano, onde fomos ensinados sobre ética, neutralidade e distanciamento no jornalismo", disse Ahmed.

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