Heroína global, vilã local

Apesar da luta de Malala, é preciso esforço maior para mudar a visão dos paquistaneses sobre importância da educação

O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2013 | 02h04

Malala Yousafzai, a estudante paquistanesa que sobreviveu a uma tentativa de assassinato do Taleban, teve sua autobiografia lançada mundialmente esta semana, após conquistar vários prêmios. Mas, embora ela seja atualmente tida como um ícone global pela sua corajosa defesa do direito de as meninas frequentarem a escola, em seu país sua estrela não tem muito brilho.

Os ataques à adolescente têm aparecido nas redes sociais acessadas pelos paquistaneses. No Paquistão, foi criada uma página no Facebook chamada "Odeio Malala". Imagens da adolescente ao lado de líderes ocidentais deram origem a rumores de que esses líderes são conexões da CIA. E o Taleban paquistanês ameaçou atacá-la novamente se ela retornar ao país natal.

"Logo que Malala foi levada para a Grã-Bretanha e homenageada lá e em todo o mundo, ela se tornou uma vilã no Paquistão, porque as pessoas que divulgam ideias de que o Ocidente é inimigo começaram a dizer que, como ela se juntou a eles, não pode ser mais considerada amiga", disse Fahd Husain, âncora de um conhecido canal de notícias paquistanês.

"Se, por exemplo, ela tivesse sido levada para a Arábia Saudita para ser tratada e se tornasse uma voz contra o Taleban a partir daquele país, a reação teria sido muito diferente", afirmou.

Embora Estados Unidos e Paquistão sejam aliados, o Taleban desfruta de um forte apoio em alguns bolsões da população paquistanesa e pesquisas de opinião deixam claro que há um sentimento antiamericano muito forte entre os paquistaneses. De acordo com pesquisa realizada em 2012 para o Global Attitudes Project do Pew Research Center, 74% dos habitantes do país consideram os EUA seu inimigo, um aumento em relação aos 68% registrados um ano antes.

Bushra Gohar, ex-parlamentar e membro de um dos poucos partidos políticos seculares do Paquistão, disse que essa percepção é determinada pelo fato de muitos paquistaneses não considerarem o Taleban um inimigo. Além disso, as pessoas acham que o Estado fornece apoio tácito para o grupo.

"Os órgãos de Estado paquistaneses - e, entre eles, o Exército é o mais poderoso - continuam a dar abrigo ao Taleban no Waziristão, no Punjab e em todas as partes do Paquistão - e para proteger essa estratégia, propagam um discurso de apoio a esses órgãos", disse a ativista. "Em decorrência, os talebans são amigos do Estado ao passo que Malala, que contesta esse discurso, é uma inimiga."

O governo paquistanês condenou o ataque de 9 de outubro de 2012 contra a adolescente e forneceu US$ 10 milhões para o Fundo Malala, criado para ajudar a ida das meninas paquistanesas à escola. O fundo atualmente custeia o ensino de 40 meninas no Vale do Swat, onde Malala vivia antes do ataque.

Especialistas em educação advertem que a atenção internacional não deve diminuir em relação à situação do ensino no Paquistão: mais de 5 milhões de meninas em idade escolar não vão à escola e há um número muito maior de escolas para meninos do que para meninas. No Vale do Swat, por exemplo, há 717 escolas de ensino fundamental para meninos, enquanto que existem 425 para as meninas, de acordo com informações oficiais.

Para algumas pessoas, o sonho de Malala de as meninas frequentarem a escola em seu país está longe de se realizar.

Samar Minallah, cineasta e ativista defensora dos direitos humanos, trabalha em prol de mulheres e crianças na região conhecida como o "cinto tribal paquistanês", onde o Taleban tem sua base. Ela diz que, apesar de a luta de Malala ter despertado a atenção das pessoas em todo o mundo para as necessidades das meninas paquistanesas no campo da educação, ocorreram mudanças apenas cosméticas nessa área e é preciso um esforço maior para mudar a visão dos paquistaneses sobre a importância da educação.

"Há muitas áreas no país em que não há escolas, as meninas continuam a ser oferecidas como moeda de troca no caso de disputas entre famílias e o ensino curricular nas centros de ensino continua ensinando as crianças a odiarem", afirmou ela. "No Paquistão, as meninas não podem se comunicar com Malala porque existe um temor real na sociedade que não desapareceu. Há mais conversa do que ação", afirmou a cineasta, ao referir-se à sua viagem à cidade natal de Malala, onde encontrou estudantes que relutavam em ser entrevistadas.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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