Heterogêneos, Brics buscam metas comuns

Declaração em favor do programa nuclear iraniano obedece objetivos estratégicos distintos de cada um dos membros do bloco emergente

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h07

Com a participação da presidente Dilma Rousseff, a quarta cúpula dos Brics - Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul -, na quinta-feira em Nova Délhi, resultou em um comunicado de 50 pontos. Nele, o bloco exige maior espaço nas decisões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, a retomada da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, solução diplomática para o conflito na Síria e respeito ao direito do Irã de desenvolver um "programa nuclear pacífico".

Os Brics representam 25% da economia e 43% da população mundiais, e ambas as fatias só crescerão nos próximos anos. A China é grande credora da dívida americana. O FMI, do qual o Brasil passou de devedor a financiador, participou do resgate da Grécia, no âmbito da fragilizada economia da União Europeia. Quando os Brics falam, o mundo ouve. Entretanto, quando cada um de seus membros fala, tem em mente coisas diferentes.

A Rússia fornece armas para a Síria, que vê como seu último reduto no Oriente Médio. A China importa petróleo do Irã, cada vez mais dependente de seus parceiros fora do eixo ocidental. A Índia, potência nuclear regional, olha para esses países pensando em seu conflito com o Paquistão, que mantém uma relação ambivalente com os iranianos.

Diferentemente do que ocorre com os EUA - um bloco em si mesmo - e com a União Europeia - cujos membros comungam valores políticos, econômicos e sociais -, a inserção global do Brasil está se dando dentro de um bloco muito heterogêneo.

A China é uma ditadura de partido único com um crescimento econômico avassaladoramente desigual. A Rússia é uma ditadura disfarçada, com um capitalismo de Estado que mistura poder político e econômico.

A África do Sul vem de um sistema de segregação racial que ainda conforma a sua sociedade, até mesmo na forma como a atual elite negra reage ao passado, servindo-se do Estado. A Índia é a maior democracia do mundo, mas que tem sua base em um sistema de castas e com um enorme contraste entre nichos de alta tecnologia e extensas áreas sob total inanição.

Quais as consequências dessa aliança sobre a inserção global do Brasil? "Brics são uma composição heterogênea, mas isso não invalida a força residual que possa ter, por exemplo, na questão econômica, a junção desses países pedindo reformas dos organismos multilaterais, porque aí todos estão no mesmo barco", avalia Tovar da Silva Nunes, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores. "É diferente de pedir reformas das Nações Unidas, que interessam mais à Índia e ao Brasil. China e Rússia ainda não se convenceram da necessidade de reforma do Conselho de Segurança."

Mesmo em questões políticas específicas, como a do Irã e a da Síria, o bloco pode chegar a posições consensuais, ainda que por motivações diferentes, como ocorreu em Nova Délhi. "A preocupação do Brasil é mais de princípio, de não aceitar, por exemplo, que um país seja tolhido na sua capacidade de desenvolver um programa nuclear pacífico e também na insistência de ter diálogo com os outros países para que não seja perdida a possibilidade de solução diplomática", observa o porta-voz. "Claramente, a Rússia terá um outro impulso para pedir a mesma coisa, a Índia outro, mas isso não invalida (a ação conjunta)."

A diferença de motivações, às vezes, determina tomadas de posições distintas, reconhece Tovar, como no caso das votações no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra. O Brasil foi o único membro do bloco que votou duas vezes a favor da verificação das violações de direitos humanos na Síria, no ano passado. E, numa terceira, quando já não era membro de turno, declarou-se favorável à medida, mesmo não podendo votar.

Mas o porta-voz lembra que os membros da União Europeia, com toda a sua homogeneidade e experiência de atuação conjunta, têm posições diferentes sobre o reconhecimento do Estado palestino, por exemplo.

Tovar argumenta também que os Brics não são a única "plataforma de inserção" global do Brasil. Ele aponta para a existência do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul), um bloco dentro do bloco. "O Ibas, pela característica de serem três democracias multiétnicas, cada uma num continente, cada um líder, sem pretender, mas com uma projeção regional, dá voz a Brasil, Índia e África do Sul de uma maneira que, individualmente, seria menor."

Segundo o porta-voz, o Brasil vê os Brics como um "saudável elo de multipolarização" e mantém o diálogo tanto com a União Europeia quanto com os EUA, que Dilma visitará dia 9. "Não apostamos todas as nossas fichas nos Brics."

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