Jim Watson/AFP
Jim Watson/AFP

Hezbollah deixa gabinete, derruba governo e abre crise política no Líbano

Em protesto contra primeiro-ministro que não tomou posição contra investigação da ONU - que acusaria membros do grupo pelo atentado que matou o ex-premiê Hariri, em 2005 -, partido radical xiita lança país em vácuo de poder que deve durar meses

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2011 | 00h00

Um impasse envolvendo o Hezbollah provocou o colapso do governo de união nacional do Líbano no momento em que o primeiro-ministro, Saad Hariri, se reunia com o presidente dos EUA, Barack Obama, na Casa Branca. Ministros xiitas e cristãos, ligados ao partido armado pró-Irã, decidiram renunciar a seus cargos, inviabilizando a continuidade do atual governo em Beirute, aliado dos americanos.

Os opositores, que controlavam uma minoria de um terço com poder de veto na coalizão, argumentaram que o premiê não tomou uma posição contra o Tribunal Especial da ONU para o Líbano que deve, segundo especulações, indiciar membros do Hezbollah pela morte do ex-premiê Rafik Hariri em atentado a bomba há seis anos. A organização xiita e seus aliados negam envolvimento no ataque terrorista e culpam Israel pela morte.

"O nosso tempo de espera chegou ao fim. Ficamos esperando, mas nenhum resultado foi alcançado", disse o ministro da Energia, Gibran Bassil, um cristão aliado do Hezbollah. Uma iniciativa capitaneada pela Síria e pela Arábia Saudita para resolver o impasse fracassou nesta semana, fechando as portas para um acordo entre facções pró e contra Hariri que, apesar de inimigas, tinham um pacto para manter o governo de união nacional.

Em Beirute, analistas diziam que a hora escolhida para a renúncia dos ministros teve como objetivo embaraçar o premiê no seu encontro com Obama. Hariri, logo após a reunião, embarcou para Paris, onde conversaria com o presidente da França, Nicolas Sarkozy. Outras informações indicavam que ele seguiria diretamente para Beirute.

O governo dos EUA reagiu imediatamente aos acontecimentos no Líbano, divulgando um comunicado oficial de Obama logo depois da reunião com Hariri. "O presidente elogia o primeiro-ministro por sua inabalável liderança durante estas circunstâncias difíceis. Os esforços da coalizão liderada pelo Hezbollah para derrubar o governo libanês buscam bloquear a habilidade da administração para conduzir seus negócios e fazer avançar as aspirações do povo libanês." Obama, de acordo com a nota da Casa Branca, também discutiu com Hariri os esforços internacionais para levar adiante o tribunal que investiga a morte do pai do premiê. A secretária de Estado Hillary Clinton disse que a ação do Hezbollah para sabotar o tribunal da ONU fracassará.

Ao todo, 11 dos 30 ministros deixaram o governo. Dois deles eram do Hezbollah. Oito pertenciam à Amal, um grupo xiita mais moderado, e a facções cristãs ligadas ao líder populista opositor Michel Aoun. O outro ministro que renunciou tinha sido indicado pelo presidente Michel Suleiman. Os 15 ministros próximos a Hariri, entre eles sunitas, drusos e cristãos, e outros 4 indicados pela presidência não deixaram seus cargos.

PARA ENTENDER

No Líbano, o premiê precisa ser, pela Constituição, muçulmano sunita. O presidente sempre é cristão maronita e o presidente do Parlamento tem de ser xiita. Metade dos deputados é cristã; a outra, muçulmana e drusa. O gabinete também se divide em linhas sectárias. Os governistas são em sua maioria sunitas e alguns cristãos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.