''Highlander'' argentino resiste a reforma ministerial

Moreno faria ?trabalho sujo? para Kirchners

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

13 de julho de 2009 | 00h00

Os apelidos de Guillermo Moreno, secretário de Comércio Interior, são os mais variados e sugestivos. Ele é chamado de "Lassie" - tal como a simpática e doce cadela collie imortalizada no cinema - pelo ex-presidente argentino Néstor Kirchner, em alusão irônica a seu comportamento agressivo. Ele também é o "Napia" ("nariz", na gíria portenha) para seus colegas de gabinete por seu perfil aquilino.Mas, nas últimas duas, semanas ele passou a ser chamado de "Highlander", em alusão à sequência de filmes dos anos 80 cujo protagonista era um homem imortal, capaz de sobreviver a todas as circunstâncias.Moreno é a mais polêmica das figuras do gabinete da presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Ele passou incólume a todas as reformas ministeriais. Ele próprio sobreviveu a vários ministros da Economia que tentaram limitar a influência do poderoso secretário, supostamente seu subordinado hierárquico.Na semana passada, quando Cristina trocou seu ministro da Economia e o chefe do gabinete de ministros, rumores indicavam que Moreno também seria removido.No entanto, demonstrando sua força nos corredores da Casa Rosada, ele permaneceu. A notícia desagradou aos mercados, que a interpretaram como um sinal de que os Kirchners não pretendem alterar o rumo das políticas do governo. Os títulos da dívida pública despencaram 11% quando foi confirmado que Moreno ficaria em seu posto.REPUTAÇÃO POLÊMICAOs Kirchners resistem à ideia de removê-lo, já que Moreno - segundo analistas - é o homem que faz o "trabalho sujo". Ele é o responsável pela manipulação dos índices da inflação, pobreza, desemprego e PIB realizada pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob férrea intervenção do governo há dois anos e meio.Moreno inicia encontros com empresários colocando seu revólver em cima da mesa. Ele também telefona aos executivos às 6 horas da manhã - nos fins de semana - para exigir, em frases entremeadas de sonoros palavrões, que congelem o preço de seus produtos.Dono de um vasto bigode que faria inveja ao revolucionário mexicano Emiliano Zapata, o secretário também inicia as reuniões com executivos com afirmações sobre sua masculinidade, a qual, indica Moreno, é superior à dos interlocutores.A oposição o considera símbolo do lado mais corrupto e autoritário do kirchnerismo e também exige sua remoção. Após a derrota do governo nas eleições parlamentares, os próprios aliados dos Kirchners pediram a saída de Moreno. Neste fim de semana ressurgiram boatos de que o casal presidencial poderia remover o secretário em sinal de trégua para a oposição, ao establishment e aos próprios aliados.

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