Hillary acusa Rússia de enviar helicópteros à Síria

Venda das aeronaves de ataque viola compromisso de pacificação desenhado por Kofi Annan; dirigente da ONU já considera conflito uma guerra civil

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2012 | 03h06

A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, acusou ontem a Rússia, principal suporte internacional do presidente sírio, Bashar Assad, de enviar helicópteros militares para o regime da Síria. A afirmação foi feita no mesmo dia em que uma das principais autoridades da ONU qualificou de guerra civil os acontecimentos na Síria.

"Estamos preocupados com as últimas informações de que helicópteros de ataque estejam sendo enviados da Rússia para a Síria. Isso pode provocar uma escalada dramática do conflito", disse Hillary ontem em Washington depois de uma reunião com o presidente de Israel, Shimon Peres. Segundo a secretária de Estado, os EUA "confrontaram os russos para eles pararem com os contínuos envios de armas aos sírios. Eles responderam que não devíamos nos preocupar porque não há relação com ações internas (do governo sírio)".

Não há ilegalidade na venda dos helicópteros para a Síria, pois o regime de Assad não é alvo de um embargo de armas imposto pelo Conselho de Segurança da ONU por meio de uma resolução. Além disso, há décadas, a Rússia tem a Síria entre seus principais clientes e usa o Porto de Tartus, na costa síria, como um entreposto militar no Mediterrâneo.

O problema é que, com a venda de armas, Moscou e Damasco estariam violando o plano para solucionar a crise apresentado pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan. Essa iniciativa pede o fim da venda de armas para as Forças Armadas sírias e também para as milícias de oposição.

O governo russo, pressionado ontem por problemas domésticos (mais informações na página A11), não respondeu à afirmação feita pela secretária de Estado.

O regime de Assad, por seu lado, acusou ontem, segundo a agência de notícias estatal Sana, os Estados Unidos de estarem "armando terroristas", termo usado pelo governo em Damasco para se referir aos opositores armados. O Departamento de Estado afirma que, por enquanto, apenas concede apoio logístico, como aparelhos de comunicação, para as facções pacíficas da oposição.

Na Síria, de acordo com Sausan Ghosheh, porta-voz da missão de observadores da ONU, os monitores foram impedidos de chegar ontem à cidade de Haffa por uma multidão que cercou os veículos nos quais eles viajavam. Os EUA afirmaram que um massacre por parte das forças do regime, ou de suas milícias aliadas, conhecidas como shabiha, estaria sendo planejado. O governo de Damasco nega a informação. Não há confirmação independente porque o regime não permite a livre circulação de jornalistas pelo país.

Questionado por jornalistas se a violência na Síria já havia se tornado uma guerra civil, o subsecretário da ONU para Operações de Paz, Herve Ladsous, afirmou ontem: "Sim, acho que podemos afirmar isso". Foi a primeira vez que uma pessoa de sua hierarquia nas Nações Unidas fez uma declaração nesse sentido sobre o conflito na Síria, apesar de analistas há meses classificarem a crise dessa forma.

"Claramente, o governo da Síria perdeu partes de seu território em algumas cidades para a oposição e tenta retomar essas áreas", afirmou. "Podemos confirmar não apenas o uso de tanques, mas também de helicópteros." Até agora, segundo a oposição, cerca de 14 mil pessoas foram mortas na Síria desde o início do levante, há 15 meses.

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