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Hillary Clinton perde apoio dos haitianos

Enquanto pré-candidata tenta disputar a Casa Branca, Haiti enfrenta um grande abismo político e vê a democrata com o mesmo desprezo que dedicam a antigos líderes

Yamiche Alcindor - The New York Times*, O Estado de S. Paulo

28 de março de 2016 | 09h36

Carregando chifres, sinais escritos à mão e garrafas com gasolina para colocar fogo em pneus, um grupo de homens marchou até um dos muitos protestos que têm paralisado partes de Port-au-Prince, capital do Haiti, este ano.

Eles ficaram irritados com o presidente, que deixou que o Parlamento entrasse em colapso e não conseguiu realizar as eleições agendadas. Estavam bravos com as Nações Unidas por não garantir uma votação justa para seu sucessor. E nervosos com a ex-secretária de Estado americana que ajudou a colocá-lo no poder.

“Está vendo todas essas pessoas aqui?”, perguntou Jean Renold Cenatus, um dos manifestantes haitianos enrolado em uma bandeira, que afirma estar desempregado. “Estamos enfrentando essa situação em razão do que a senhora Clinton fez cinco anos atrás.”

Em sua vida como cidadãos do mundo depois do ano 2000, Hillary Clinton e o ex-presidente Bill Clinton estiveram mais ligados ao Haiti do que a qualquer outro país. Como enviado especial das Nações Unidas, Bill Clinton ajudou a levantar milhões de dólares para a nação depois do terremoto devastador de 2010. Hillary viajou para lá quatro vezes como secretária de Estado e conseguiu bilhões de dólares de ajuda financeira dos americanos.

Eles frequentemente falam com carinho sobre o Haiti, um dos primeiros lugares que visitaram quando recém-casados em 1975. “Viemos aqui pela primeira vez juntos logo depois de nos casarmos e nos apaixonamos pelo Haiti”, contou Hillary em 2012, ao lado de seu marido, na inauguração de um parque industrial que ela ajudou a financiar. “Temos uma profunda ligação com o Haiti desde então.”

Mas enquanto Hillary busca o emprego mais poderoso do mundo e o Haiti mergulha em outro abismo político, uma parte barulhenta dos haitianos e dos haitianos-americanos está falando dos Clinton com o mesmo desprezo que dedicam a alguns dos seus antigos líderes.

Em blogs muito lidos, em protestos em Port-au-Prince, do lado de fora dos escritórios de campanha de Hillary Clinton no Brooklin e em programas de rádio populares que atendem ligações na Flórida, ela e seu marido se tornaram os principais alvos da culpa pelos problemas do país.

Entre a ladainha de queixas jogadas a seus pés está o fato de que menos de metade dos empregos prometidos no parque industrial, construído depois que 366 fazendeiros foram expulsos de suas terras, se concretizaram. Muitos milhões de dólares destinados aos esforços de alívio ainda não foram gastos. O nome de um irmão de Hillary, Tony Rodham, apareceu em negócios de risco na ilha, desencadeando especulações sobre negociatas internas.

“Um voto para Hillary Clinton significa aumentar a corrupção, aumentar a morte e a destruição de nosso povo. Significa que mais haitianos vão deixar o Haiti e não terão como viver em nosso país”, afirma Dahoud Andre, apresentador de um programa de rádio em Nova York que ajuda a organizar protestos contra os Clinton. E agora, um presidente que Hillary ajudou a ser eleito se tornou mais um em uma longa fila de líderes problemáticos.

Ainda não se sabe se o desencanto com Hillary na comunidade haitiana do sul da Flórida poderia prejudicar sua eleição. Estima-se que 150 mil eleitores haitiano-americanos vivam na Flórida, Estado onde 537 votos decidiram a eleição de 2000. Mas a maioria esmagadora deles também tem votado nos democratas, de acordo com Fernand R. Amandi, sócio principal da Bendixen & Amandi International, uma firma de pesquisa de opinião pública de Miami que vem estudando os haitianos-americanos.

Para muito haitianos, o momento mais significativo de Hillary como secretária de Estado foi em 2011, quando ela voou para o Haiti para pressionar o presidente René Préval a admitir Michel Martelly, um músico popular conhecido como “Sweet Micky”, como uma das duas pessoas a concorrer em um segundo turno como sucessor de Préval. Martelly chegou em terceiro em uma eleição inicial, mas a Organização dos Estados Americanos acreditou que o candidato que ficou em segundo, a escolha de Préval, havia sido beneficiado por fraudes nas eleições.

Na noite do segundo turno, que Martelly ganhou, a chefe de gabinete de Hillary, Cheryl D. Mills, escreveu uma nota de felicitações para os diplomatas americanos mais importantes do Haiti. “Vocês fazem grandes eleições”, afirmou na mensagem divulgada pelo Departamento de Estado, entre uma série de e-mails de Hillary Clinton. Ela escreveu que iria pagar o jantar da próxima vez que fosse visitá-los: “Podemos discutir como a contagem está indo! Brincadeira. Mais ou menos.”

O e-mail de Cheryl pode ter sido uma brincadeira, mas alimentou a suspeita entre os haitianos, mesmo sem provas, de que os EUA fraudaram as eleições para colocar um presidente-fantoche.

E enquanto Martelly lentamente concentrou o poder e deu empregos importantes para amigos com passados criminosos, a mulher que ajudou a colocá-lo no segundo turno começou a ser atacada. Martelly deixou a presidência em fevereiro, como estava previsto, mas sem colocar um sucessor em seu lugar.

Depois que Hillary declarou que seria candidata à presidência, as ligações começaram a pipocar no programa de rádio de Andre, como na vez em que uma mulher lamentava o apoio que ela e seu pai já falecido tinham dado aos Clinton e as doações que fizeram para ajudá-los a se eleger. “Quando eles fazem coisas boas, temos que aplaudir. Mas quando fazem coisas ruins, devemos denunciá-los porque não são boas. E Hillary Clinton não é boa”, afirmou em haitiano.

As atividades de Tony Rodham, irmão de Hillary, são mencionadas frequentemente nos programas. Em 2015, um livro chamado “Clinton Cash” (Dinheiro dos Clinton), de Peter Schweizer, revelou que, em 2013, Rodham entrou para o conselho consultivo de uma empresa que possui uma mina de ouro no Haiti. Tanto ele quanto o presidente da companhia contaram ao jornal The Washington Post que haviam se conhecido em um encontro da Iniciativa Global Clinton, um braço da Fundação Clinton. Funcionários da fundação disseram que não têm nada a ver com o fato de Rodham ter entrado para a empresa mineradora.

Rodham e vários sócios também procuraram sem sucesso fechar um negócio de US$22 milhões para reconstruir casas no país enquanto Bill Clinton estava liderando a comissão de reconstrução.

Apesar de não haver evidências de que Rodham teve tratamento preferencial, seus empreendimentos foram rapidamente inflados com rumores, que são ouvidos com frequência nas ruas e nas rádios, de que os Clinton estiveram ocupados comprando terras no Haiti para conseguir algum lucro.

Ativistas barulhentos como Ezili Dantò, advogado de direitos humanos que fundou a Rede de Liderança de Advogados Haitianos, dizem que acreditam que Hillary deu uma ajuda ao irmão. “Hillary é vista como uma pessoa liberal e que respeita os direitos humanos, dos trabalhadores e assim por diante. Mas não tivemos esse tipo de experiência com ela no Haiti”, disse Dantò.

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