Hillary e o desgaste de 2016

Escândalo envolvendo candidato democrata à prefeitura de NY pode fazer com que ex-primeira-dama repense candidatura à presidência dos EUA

E JORNALISTA, JOHN, DICKERSON, SLATE , E JORNALISTA, JOHN, DICKERSON, SLATE , O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h04

Para Hillary Clinton, o problema de Anthony Weiner (candidato democrata à prefeitura de Nova York que admitiu a troca de mensagens obscenas com mulheres pela internet) é que ele traz lembranças dos seus próprios problemas conjugais. Não é bom fazer paralelos entre a mulher de Weiner e a ex-assessora de Hillary, Huma Abedin, que manteve-se ao lado do marido, e a própria Hillary, que passou por algo similar.

Weiner terá passado, esquecido ou se tornará uma figura irrelevante quando e se Hillary candidatar-se à presidência em 2016. No entanto, mesmo que o caso dele não sobreviva, esse episódio coloca em destaque dois desafios que Hillary terá.

O primeiro é como ela conseguirá se livrar do peso que envolve seu sobrenome caso decida disputar a presidência. O segundo é se o drama do tipo provocado por Weiner a levará a pensar duas vezes se deve ou não se candidatar novamente.

O problema de Hillary é seu desgaste. Como ocorre com o Natal, as campanhas presidenciais têm começado cada vez mais cedo. Com Hillary como candidata, essa tendência se intensificou. Ela é popular e seria uma candidata viável.

Assim, a CNN anunciou ter encomendado um documentário sobre ela. A NBC está produzindo uma minissérie sobre ela. Os dois canais apostam que Hillary sairá candidata. O problema dessa tendência é que, na ocasião em que a candidatura realmente for lançada, todos já estarão cansados.

O presidente Barack Obama foi um candidato inovador que surgiu. De pai negro e mãe branca, um histórico de vida diferente, além de dizer coisas interessantes. No entanto, agora, os democratas estão se organizando para indicar um candidato mais inserido no contexto.

Hillary está no centro de duas tendências políticas: a mídia que alimenta o frenesi e se preocupa cada vez menos com o que é substancial e o aumento do apoio partidário às presidências de Clinton, Bush e Obama.

Hillary não está pedindo toda essa atenção, mas pode responder a ela, o que significa que veremos artigos e reportagens com citações de pessoas ligadas a ela. O que deve cansar o público muito antes do próximo capítulo do drama - seja ele qual for.

Querelas de assessores, entendimento equivocado daquilo que foi por ela afirmado ou mais uma rodada de debates feministas e pós-feministas sobre as preferências dela, por mínimas que sejam.

Naturalmente, os envolvidos na campanha de Hillary poderão coordenar os esforços para limitar o drama. Boa sorte, nem tudo está sob o controle dela. Outra opção é romper claramente com o passado, do modo como que ela fez no Departamento de Estado.

O grande triunfo na passagem de Hillary pelo Departamento de Estado, até a tragédia de Benghazi, foi que ali não houve drama. Não apenas inexistiram distrações que tirassem sua atenção dos assuntos públicos, mas ela aumentou suas credenciais presidenciais, com funcionários elogiando suas habilidades administrativas, algo que não ficou evidente quando ela disputou as primárias em 2008.

Outra possibilidade é que o público se canse da fascinação da imprensa por Hilary e resolva se distanciar de uma mídia cada vez mais incapaz de distinguir entre o fútil e o que é realmente importante.

O drama não será mais a criação de Hillary, mas da mídia e dos partidários que não conseguem esquecê-la. Hoje, Matt Drudge criador de um serviço de notícias, insistiu numa suposta nova gravação do caso Monica Lewinsky. Diante da sua atitude, a capacidade de Hillary de resistir a um ilegítimo escrutínio da mídia e a abusos da direita tornou-se um ativo seu. O que significa que ela tem coragem e tenacidade.

Aqueles eleitores que gostam de Obama, mas acham que falta a ele determinação para enfrentar vigorosamente os obstáculos a sua frente, poderão imaginar que Hillary seja uma pessoa mais enérgica.

Hillary é uma lutadora, mas estará interessada numa batalha sem fim? Vincular seu nome a Weiner é estúpido e frustrante para ela. Hillary não tem nada a ver com essa disputa e tampouco com muitas das pessoas que na imprensa estão falando sobre as intenções dela ou do seu marido. Ela não pode fazer muito para acabar com isso.

Mas o episódio de Weiner demonstra o quão animados esses personagens podem ser. O caso não implicou em envolvimento de Hillary, mas muitas matérias foram produzidas, análises foram feitas e estagiários foram enviados a arquivos para garimpar trechos de gravações disto ou daquilo. Hillary Clinton está pronta para uma dose constante disto tudo? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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