Hillary em 2016? Calma lá.

A dinastia Clinton não combina com o atual clima político, avesso a Washington, e suceder a Obama não será simples

Frank Bruni* , O Estado de S.Paulo - The New York Times

06 de novembro de 2013 | 02h01

Hillary Clinton sabe melhor do que ninguém coma a sorte na política pode mudar rapidamente. Mas ela deve ter ficado intrigada, mesmo assim, e assustada, pois no período de seis meses em que ela não rendeu grandes manchetes, sua popularidade sofreu uma queda de dois dígitos.

Uma pesquisa de opinião realizada na semana passada pela TV NBC News e pelo Wall Street Journal mapeou o declínio. Ela revela que a porcentagem dos americanos que a viam favoravelmente recuou de 56% para 46%. A porcentagem com visões desfavoráveis cresceu, menos chocantemente, de 29% para 33%.

Lá vamos nós. O começo do fim de sua inevitabilidade. Já não era sem tempo, porque a verdade é que ela tem sérios problemas como uma potencial concorrente presidencial em 2016 e sua promoção prematura por Chuck Schumer e outros democratas não mudará isso. Na esteira da paralisia federal, em meio ao derretimento da reforma da Saúde promovida por Obama, a insatisfação do eleitor com a situação geral está no tipo de auge que assegura mais que a parcela usual de surpresas nas próximas eleições. Numa sondagem recente, 60% dos americanos disseram que gostariam de ver todos no Congresso, incluindo seus próprios representantes, substituídos. Em outra pesquisa, uma maioria similar indicou anseios por um terceiro partido.

Esses números particularmente altos sugerem um clima em que alguém que tenha estado à frente e no centro da política por quase um quarto de século não fará esses muitos corações baterem mais forte. Os eleitores estão desiludidos com os operadores políticos familiares, especialmente os de Washington ou associados à capital. É por isso que Clinton caiu. Ela está ligada ao presidente Obama, a líderes do Congresso, a toda execrada laia deles.

E algumas das maneiras pelas quais ela se destaca do conjunto não são lisonjeiras. Hillary traz uma história política de presentes concedidos, favores recebidos, lealdades inabaláveis e antigas disputas mais confusa do que quase qualquer possível competidor. Tivemos vislumbres do clã dos Clinton como uma classe governante autorizada, estabelecida. Com uma intensidade que alienou alguns seguidores leais do casal, Bill e Hillary se mostraram ultimamente despudorados em sua coroação de Chelsea como a Clinton de plantão, a herdeira do trono.

Eles renomearam a fundação da família para lhe dar um faturamento igual aos seus e Hillary disse que a promoção de Chelsea, filha do casal, estava "no DNA". Eles arrastaram Chelsea de pedestal para pedestal, aconchegando-a nas dobras de sua própria glória.

E a coisa funciona. Numa entrevista em setembro, Piers Morgan perguntou a Bill Clinton quem daria a melhor presidente, Hillary ou Chelsea.

"No longo prazo, Chelsea", disse Bill. "Ela sabe mais do que nós sobre tudo." Divagações dinásticas desse tipo não combinam com o que está tomando a forma de um período anti-establishment na política americana, e a superexposição dos Clinton é uma solução arriscada para o metabolismo acelerado da era Twitter, que quer o que vem em seguida, algo novo.

E qual seria o argumento para uma presidência de Hillary? Ocorre uma coisa interessante quando se pergunta a democratas por que ela em 2016. Eles dizem que já é hora de uma mulher, que ela vai levantar montanhas de dinheiro, que outros candidatos potencialmente fortes não ousarão atacá-la. As respostas tratam mais do processo que da pessoa ou de alguma visão que ela tenha para o país. Não há poesia nelas. Isso não é bom.

"Competência", disse um destacado estrategista democrata, articulando a promessa de Hillary. Ela transitou bem como secretária de Estado pois, exceto pelo ataque ao Consulado dos EUA em Benghazi, conseguiu se posicionar, na maioria das vezes, acima das rixas partidárias. Mas nove meses depois de ela deixar o cargo, é difícil identificar qual foi, além de todas aquelas milhas percorridas, o seu legado. Um livro recém-publicado afirma que os assessores de Obama estudaram retirar Joe Biden da chapa e colocar Hillary no seu lugar. A anedota foi lançada como um insulto a Biden.

Mas ele permaneceu porque pesquisas internas aparentemente sugeriram que Obama não receberia um impulso significativo com a troca. O que isso diz sobre Hillary?

*Frank Bruni é colunista do The New York Times.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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