AP Photo/Tony Dejak
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Hillary escapa de ação legal, mas não se livra de problema político

A secretária de Justiça, Loretta Lynch, aceitou ontem as recomendações do FBI e decidiu encerrar, sem acusações criminais, a investigação sobre Hillary Clinton, quer usou servidores privados para enviar e receber e-mails quanto era secretária de Estado. James Comey, diretor do FBI, pode ter livrado Hillary de um problema legal, mas a deixou com um problema político. Embora não tenha recomendado um processo criminal, Comey criticou seus atos, que definiu de “extremamente descuidados” - e para os quais ela nunca deu uma explicação boa o suficiente.

The New York Times Editorial, O Estado de S. Paulo

07 de julho de 2016 | 05h00

Comey explicou que não encontrou evidências claras de que Hillary tenha infringido leis em matéria de informações sigilosas e acrescentou que “nenhum promotor sensato” pensaria numa acusação neste caso. Ele está certo. A investigação do FBI, iniciada um ano atrás, examinou milhares de e-mails enviados e recebidos por Hillary à frente do Departamento de Estado. E encontrou e-mails que continham informações, na época consideradas “top secret”, o nível mais elevado de sigilo. Dezenas de outros continham informações classificadas como “secretas” ou “confidenciais”, um nível mais baixo.

Por duas razões, afirmou Comey, isto não é um crime. Primeiro, pela falta de evidências de que Hillary pretendesse infringir alguma lei. Segundo porque, no passado, o processo em casos semelhantes tinha como base uma combinação de elementos inexistentes neste caso: tratamento descuidado de informações sigilosas, indícios de deslealdade com os EUA e tentativas de obstrução da justiça.

Comey afirmou que, embora não tenha havido crime, Hillary e sua equipe foram “extremamente descuidados no manuseio de informações sigilosas e sensíveis”. Ele acrescentou que “qualquer pessoa sensata” na posição de Hillary deveria saber que estava brincando com fogo. As observações também contestaram a reiterada afirmação de Hillary de que, na época, ela não enviou e nem recebeu material assinalado como “sigiloso”. Na realidade, não foi isto que ocorreu.

“Nenhum destes e-mails deveriam estar em qualquer sistema que não fosse secreto. Sua presença é particularmente preocupante porque todos foram armazenados em servidores pessoais não sigilosos, nem mesmo com o suporte da equipe de segurança em tempo integral”, disse Comey.

O que mais preocupa foi a conclusão do FBI de que Hillary “também usou seu e-mail pessoal enquanto se encontrava no exterior, inclusive para enviar e receber e-mails relacionados ao trabalho no território de rivais sofisticados”, acrescentando que “é possível que atores hostis tenham tido acesso à conta pessoal de e-mails da secretária de Estado”.

As conclusões de Comey podem ser consideradas uma censura ao julgamento de Hillary. Logicamente, sua recomendação foi recebida por gritos da direita, particularmente por Donald Trump, que não perdeu tempo e negou a legitimidade do trabalho do FBI, declarando que esta era mais uma prova de que “o sistema está viciado”. No entanto, a suposição de que o FBI tenha favorecido Hillary é um erro. Chefiado por Comey, que também foi vice-secretário da justiça no governo George W. Bush, o FBI realizou um trabalho abrangente para investigar um problema criado exclusivamente por Hillary.

Hillary reconheceu que errou. Ela continua sendo a mais experiente dos candidatos à presidência, particularmente se comparada a Trump. Contudo, abalou sua reputação por não obedecer à política de segurança do departamento sob sua responsabilidade. Se há de fato um momento em que ela precisa demonstrar que compreende a sinceridade exigida de quem ocupa o cargo mais alto do país, o momento é este. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

EXTRAÍDO DE EDITORIAL PUBLICADO 

EM 06/07/2016  PELO ‘NEW YORK TIMES’

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