Hillary pode mudar o assunto

Pré-candidata democrata precisa direcionar foco da campanha para assuntos mais sérios

FAREED, ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2015 | 02h00

Até agora, a discussão sobre a candidatura de Hillary Clinton à presidência dos Estados Unidos explorou exaustivamente seu anúncio em vídeo, suas escolhas de restaurantes, roupas, saúde, ética e, é claro, o marido. Relativamente pouca atenção foi dedicada a suas ideias - ou às que deveriam animar sua campanha. A maneira mais fácil de Hillary mudar a conversa seria apresentar propostas políticas de peso. Seria bom para o país também.

O pré-candidato republicano Marco Rubio apresentou sua pretensão a defensor da reforma. Em seu livro mais recente e em outros lugares, defendeu inteligentemente uma reforma ou substituição de sistemas antigos que não atendem às necessidades de hoje. Algumas das ideias são retórica republicana tradicional, como desregulação e redução do número de alíquotas fiscais. Outas são surpreendente radicais, como eliminar aos poucos os subsídios para o seguro saúde patrocinado pelo empregador.

Os EUA, como a maioria dos países industriais avançados, precisam de reformas e reestruturações. Os regulamentos se empilham e lobbies dão duro para manter seus benefícios. Enquanto isso, não há nenhum interesse especial pelas indústrias do futuro. O código fiscal é uma mixórdia corrupta. Mas será esse o maior e mais urgente problema enfrentado pelos EUA? Quando se comparam os EUA ao restante do mundo, eles não parecem obstruídos por ineficiências. No último Relatório de Competitividade Global do Fórum Econômico Mundial, os EUA ficaram em terceiro lugar - e os países à sua frente, Suíça e Cingapura, são pequeninos. É por isso que os EUA superaram quase todas as demais economias avançadas desde a crise de 2008.

Por outro lado, os EUA estão seriamente necessitados de investimento - em capital físico e humano. No mesmo relatório, os EUA figuram em 12.º em infraestrutura total, 24.º em qualidade da oferta de eletricidade, e espantoso 101.º em assinaturas de telefonia móvel.

A mais recente Ficha Informativa para Infraestrutura dos EUA da Sociedade Americana de Engenheiros Civis detalha os perigos. A idade média das 84 mil barragens do país é 52 anos e a de suas 607.380 pontes, 42 anos. Estimadas 240 mil rupturas de tubulações de água ocorram anualmente. Quarenta e dois por cento das principais vias rápidas urbanas estão congestionadas.

A necessidade de investimento em capital humano é menos visível, mas de fato mais urgente. A mobilidade social estagnou nos EUA em grande parte porque crianças pobres têm nutrição, cuidados médicos e educação inadequados. Como observou o colunista Eduardo Porter do New York Times, os EUA estão virtualmente sozinhos entre os países ricos porque gastam muito menos para educar crianças pobres do que gastam com as privilegiadas.

Outro investimento crucial seria em ciência e pesquisa. O governo está gastando menos como porcentagem do PIB nessas áreas do que fazia nos anos 1970. Isto é um retrocesso. Naquela época, os EUA tinham uma grande economia industrial com dezenas de milhares de empregos disponíveis para pessoas com formação apenas secundária. Hoje, esses empregos estão na China. Os EUA precisam criar empregos em setores e indústrias do futuro. Nós deveríamos estar investindo de fato muito mais, e não menos, em ciência a esta altura. Eu proporia mais amplamente que Washington estabeleça a meta de dobrar a porcentagem que o governo federal gasta em pesquisa básica.

Aos que levantam preocupações com o déficit, o ex-secretário do Tesouro, Larry Summers, disse em meu programa na CNN domingo retrasado. "Reduzimos o déficit de 11% do PIB para menos de 3% do PIB. O déficit que me preocupa é a enorme acumulação de manutenção adiada que estamos deixando para nossos filhos. O déficit que me preocupa é um sistema educacional que não está atendendo às necessidades de mais da metade dos garotos em escolas públicas americanas. É em oportunidades iguais. Este é um momento para nós como país fazermos o que uma empresa faria, que é tirar vantagem do baixo custo dos empréstimos para investir em nosso futuro."

Se Hillary começar a falar ininterruptamente sobre investir nos EUA, talvez a imprensa pare de perguntar que tipo de burrito ela pediu. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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