Hillary segue passos de Nixon rumo ao Salão Oval

A comparação parece exagerada, mas não deixa de ser um elogio, pois ex-presidente foi um político inteligente, pertinaz, duro e bem informado

MICHAEL, GERSON, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h03

O início efetivo da campanha presidencial de Hillary Clinton foi uma limpeza de casa tão extraordinária, tão ousada, que ainda é difícil processá-la A ex-secretária de Estado convocou os repórteres na ONU, fez uma declaração sobre as negociações nucleares do Irã e, em seguida, admitiu ter deletado mais de 30 mil e-mails que considerava pessoais da conta que usava enquanto ocupava o cargo. Este foi o ápice de uma deliberada manobra para evitar a vigilância do Congresso, como vem fazendo há anos a Lei de Liberdade da informação e o arquivamento dos registros federais. Documentos que ela achou inconvenientes para serem divulgados enquanto estava no governo tornaram-se convenientes para serem destruídos depois que deixou o cargo.

Os que procuravam um paralelo histórico recorreram, inevitavelmente, a uma figura. O deputado Darrell Issa (republicano da Califórnia) disse que Hillary é "uma moderna e democrática Richard Nixon". "Nixon não queimou as fitas", tuitou Joe Scarborough, "mas Hillary deletou os e-mails". Todd Purdum, da organização Politico, fez uma cuidadosa comparação histórica com Nixon, e concluiu que Hillary é "desconfiada, sempre na defensiva, menospreza a imprensa e zomba dos adversários políticos". A eliminação dos e-mails - salvo novas revelações - talvez funcione.

Aparentemente, ela se movimentou por regiões cinzentas das normas federais evitando a transparência. Mas os republicanos evidentemente esperam que o rótulo nixoniano - que alguns na mídia acham crível - pegue. Segundo acreditam, a polêmica, embora não fatal em termos políticos, contribuirá para a composição de uma candidata motivada pela discrição e pelo ressentimento, cercada por uma guarda palaciana impiedosa, e convencida de que as regras se aplicam aos outros.

Um candidato republicano à presidência em 2016 (assim como todos os candidatos presidenciais) precisará caracterizar negativamente seu adversário. Mas a comparação de Hillary com Nixon subestima ambos os líderes.

Em primeiro lugar, o óbvio: Nixon venceu duas eleições à presidência depois de ser associado a táticas políticas desprezíveis (contra Helen Gahagan Douglas) e a um escândalo (até mesmo uma polêmica sobre doações que quase o obrigou a renunciar depois de indicado à vice-presidência pelo Partido Republicano, e um escândalo de favoritismo envolvendo de certo modo seu irmão, Donald, e Howard Hughes). Muito antes de Watergate, Nixon não era considerado uma boa comparação em termos de ética. Mas em geral era visto como um político inteligente, pertinaz, duro e bem informado a respeito do mundo. O que soa familiar.

O contexto das duas vitórias de Nixon (1968 e 1972) foi peculiar. Para muitos americanos, Nixon representava a ordem social num mundo de revoltas, assassinatos e jeans boca de sino. Mas sua fama de durão também foi vista como uma qualificação presidencial durante a Guerra Fria, e Nixon (que enfrentou Nikita Kruchev no "Debate de cozinha") beneficiou-se do contraste com Hubert Humphrey e George McGovern.

A comparação com Hillary pode certamente ser exagerada. Segundo se afirma, ela não tem a falta de jeito e as singularidades pessoais de Nixon. Mas, em parte, a caracterização nixoniana é um elogio: trabalhadora persistente, incansável, implacável. Enquanto outra parte - desconfiada, reservada, impiedosa - pode levar a algum beco obscuro. Neste momento, Hillary em geral se beneficia, não sofre, com sua fama.

O próximo presidente, de qualquer partido, terá de apresentar um contraste de força e determinação à política externa de descomprometimento do presidente Barack Obama, que resultou em desastre e tem levado a respostas inadequadas. Apesar de ser associada ao fracasso do restabelecimento das relações com a Rússia, Hillary em geral é colocada à direita intervencionista de Obama em política externa (principalmente na Síria). É uma democrata que poderia parecer uma alternativa mais dura, mais responsável, ao seu ex-patrão.

E essa reputação também ajuda Hillary dentro do partido. Sua campanha preparatória foi complicada - a problemática turnê, a alegação de que deixou o cargo "totalmente quebrada", cobrando cifras exorbitantes pelas conferências, enquanto sua fundação aceita doações de governos estrangeiros. As preocupações dos democratas quanto à sua capacidade são reais, mas as críticas são raras e brandas. Em parte, isso reflete a posição de Hillary de candidata favorita proibitiva, mas isso também é, em parte, o efeito intimidatório do seu estilo. Nenhum democrata quer estar na lista errada.

Hillary não é imbatível, mas a tentativa de rotulá-la como nixoniana não a derrotará. Os republicanos enfrentam um difícil mapa eleitoral; seu partido ainda é visto mais em termos negativos do que como alternativa; ele afastou grande parte da classe trabalhadora e dos eleitores das minorias; e todos seus potenciais candidatos presidenciais estão perdendo para Hillary por dois dígitos.

Se os republicanos considerarem as próximas eleições como um referendo sobre os escândalos de Hillary Clinton - e isso distrair as atenções da tarefa de recompor a mensagem e o apelo republicanos - ela poderá tomar o caminho nixoniano para o Salão Oval. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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