Hillary vive o seu momento Kissinger

Visita da secretária de Estado à Ásia foi tão importante quanto a invenção da diplomacia triangular, nos anos 70

YURIKO KOIKE PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2010 | 00h00

A recente viagem de Hillary Clinton à Ásia talvez seja considerada, um dia, a visita mais significativa à região de um diplomata dos EUA desde a missão secreta de Henry Kissinger a Pequim, em julho de 1971, que desencadeou uma revolução diplomática. A renovação das relações sino-americanas modificou o equilíbrio de poder global no ápice da Guerra Fria e preparou terreno para a abertura da economia pela China - decisão que, mais do que qualquer outra, definiu o mundo de hoje. O que Hillary fez e disse durante a viagem à Ásia marcará o fim da era iniciada por Kissinger, há quatro décadas, ou o início de uma nova fase, distinta daquela época.

A visita de Hillary produziu os mais claros sinais de que os EUA não estão dispostos a aceitar a pressão da China para conseguir hegemonia regional. Nos bastidores da cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Hanói, Hillary contestou o chanceler chinês, Yang Jiechi, quanto à afirmação de Pequim de que é de seu "interesse" ter o controle das Ilhas Spratley, no Mar do Sul da China. Com essa declaração, a China exige que as ilhas (cuja soberania também é reivindicada pelo Vietnã e pelas Filipinas) sejam parte do país, assim como o Tibete e Taiwan, e considera tabu qualquer interferência externa.

Ao rejeitar a afirmação, Hillary propôs que os EUA ajudem a criar um mecanismo internacional para a mediar a soberania das ilhas entre China, Taiwan, Filipinas, Vietnã, Indonésia e Malásia. Para a China, a intervenção de Hillary foi um choque. Considerando a reação calorosa que ela recebeu de seus anfitriões vietnamitas - apesar de criticar a situação dos direitos humanos no país -, a secretária de Estado pode ter levantado a questão por insistência do Vietnã ou, talvez, por sugestão de Malásia e Filipinas.

Na Ásia, surgiu o temor geral de que a China esteja procurando usar seu crescente poderio marítimo para dominar não apenas o desenvolvimento das águas ricas em petróleo do Mar do Sul da China como também os corredores de navegação que registram o tráfego mais intenso do mundo.

Portanto, a posição de Hillary foi muito bem vista, principalmente quando ela falou em um maior empenho dos EUA com relação à segurança marítima na costa chinesa, participando pessoalmente de exercícios navais e aéreos conjuntos com a Coreia do Sul, ao largo da península coreana. Do mesmo modo, os vínculos militares entre os EUA e a unidade de elite das Forças Armadas da Indonésia - suspensos há décadas - foram restaurados durante a viagem de Hillary a Jacarta.

Os exercícios de guerra constituíram uma advertência à Coreia do Norte de que os EUA mantém um compromisso com a Coreia do Sul, especialmente depois que Pyongyang afundou o navio de guerra sul-coreano Cheonan, em março. As manobras também confirmam que os militares americanos não estão tão concentrados em seus compromissos no Iraque e no Afeganistão a ponto de não se preocuparem em defender interesses vitais do país na Ásia.

Uma parte desses exercícios foi realizada posteriormente no Mar Amarelo, em águas internacionais muito próximas da China, demonstrando abertamente o compromisso americano com a liberdade dos mares na Ásia. A isto se seguiu a visita de um porta-aviões americanos ao Vietnã, a primeira desde o fim da Guerra do Vietnã, há 35 anos.

A China não só considerou a intervenção de Hillary na questão das Ilhas Spratley um "ataque", como também cancelou as manobras navais no Mar Amarelo antes dos exercícios americanos com a Coreia do Sul.

Contradição. Mas a visita de Hillary foi importante não apenas pela reafirmação do compromisso americano com a segurança na Ásia e no Pacífico Oriental. Ela também foi fundamental porque expôs abertamente uma contradição da política externa chinesa. Em 2005, Pequim anunciou que buscaria um "mundo harmonioso" e estabeleceu como objetivo a instauração de relações amistosas com outros países, particularmente com vizinhos mais próximos. Em agosto de 2008, o Comitê Central do Partido Comunista declarou que "o trabalho na área das relações exteriores deverá fortalecer a construção econômica".

Aparentemente, as relações internacionais agora se tornaram subordinadas às preocupações internas. Por exemplo, é o temor da expansão do tumulto provocado pelo colapso da Coreia do Norte que tornou a política chinesa para Pyongyang tão subserviente. E a intransigência chinesa a respeito do Mar do Sul da China é uma consequência direta da riqueza que acredita existir no leito do oceano. Consequentemente, a China está tornando praticamente impossível a instauração de relações regionais amistosas.

Hoje se espera que a visita de Hillary faça com que os governantes chineses compreendam que é principalmente na Ásia que a influência internacional de seu país está sendo testada e moldada. A retórica estridente e o menosprezo pelos interesses dos vizinhos menores cria apenas inimizade, não harmonia.

Na realidade, é a qualidade dos laços da China com seus vizinhos asiáticos, particularmente Índia, Indonésia, Japão, Rússia e Coreia do Sul, que será fundamental para sua imagem internacional, assinalando não apenas para a região, mas para o mundo todo, o tipo de grande potência que a China pretende ser.

Alarme. Uma política chinesa de pressão e de ameaças contra o Vietnã ou as Filipinas sobre a soberania das Ilhas Spratley ou a deliberada intimidação de vizinhos menores no sul do continente, continuará provocando alarme em todo a região, sendo considerada a prova das ambições hegemônicas da China.

Se Pequim não demonstrar que pode resolver pacificamente suas disputas com os vizinhos, suas declarações de uma "ascensão pacífica" não serão convincentes, não apenas em Washington, mas também nas capitais de toda a Ásia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-MINISTRA DA DEFESA DO JAPÃO

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