EFE/MIGUEL GUTI?RREZ
EFE/MIGUEL GUTI?RREZ

Hiperinflação faz venezuelano derreter moedas antigas e descartar as novas

Moedas voltaram aos bolsos dos venezuelanos interessados em vendê-las como sucata, apesar de um quilo não pagar nem um café; segundo projeção do FMI, inflação chegará este ano a 1.700% o que levou governo a imprimir cédulas de valor mais alto 

Felipe Corazza, Enviado Especial / Caracas, O Estado de S. Paulo

28 Abril 2017 | 05h00

Com uma hiperinflação de 720% por ano em 2016 e previsão de 1.700% para este ano, a Venezuela transformou as moedas de 1 bolívar em peças de ficção, destinadas aos fundos de gavetas e a colecionadores. A desvalorização é tamanha que aquelas retiradas formalmente de circulação voltaram aos bolsos dos venezuelanos interessados em derretê-las para suprir necessidades básicas, enquanto as que ainda têm valor nominal são desprezadas.

Tendo perdido totalmente seu valor na reforma monetária feita por Hugo Chávez em 2007, as unidades de 1, 2 ou 5 bolívares cunhadas antes de 1990 são vendidas e compradas por quilo por terem sido forjadas inteiramente em níquel. Buscando cada forma de renda possível diante da derrocada da economia venezuelana, caçadores de moedas afixam anúncios nas paredes – mesmo em bairros mais pobres – procurando o metal que será revendido como sucata.

O quilo das moedas cunhadas antes de 1990 é comprado a 900 bolívares, segundo ofereceu um dos negociantes procurados pela reportagem. O valor não paga um café na lanchonete mantida há 20 anos na Avenida Solano López pelo sr. Puentes – que pede o uso deste nome fictício com medo de represálias. A inflação que, segundo projeção do FMI, deve chegar a 1.700% neste ano, devora o poder de compra dos venezuelanos e também as noites de sono de comerciantes. 

Puentes, que decora quase todo o lugar com cartazes de mensagens evangélicas de esperança e perseverança, diz ter reduzido sua margem de lucro “em cerca de 35% a 40%” nos últimos dois anos. Sem isso, diz, não teria conseguido manter a clientela e seria obrigado a fechar. “Não é possível acompanhar totalmente a inflação. Se fosse, teria de levar os preços a um nível impagável.” 

Recentemente, o governo anunciou a entrada em circulação de uma nova família de cédulas e moedas, com denominações que vão até 50 mil – a máxima anterior era de 100, obrigando cidadãos a carregarem pilhas de dinheiro apenas para as compras do dia a dia ou utilizarem quase exclusivamente os cartões de débito e crédito. 

Apesar disso, as máquinas para cobrança eletrônica ainda não estão em todos os estabelecimentos comerciais. “Com a demanda, os bancos não conseguem atender a todo mundo e mesmo assim cobram caro”, afirma Puentes. As taxas, dependendo da instituição, chegam a 4% dos valores de venda. Como alternativa, ele fez um acordo com o vizinho, dono de uma oficina de conserto de televisores, para cobrar de seus clientes utilizando a mesma máquina. O trato envolve o pagamento de 2% sobre as transações.

Há 16 anos vendendo autopeças em uma esquina próxima à Praça Venezuela, Jairo (que pede para manter o sobrenome em segredo) diz nunca ter passado por situação similar. “Não é só o preço que sobe, a mercadoria não aparece. Estamos pela primeira vez vendendo peças de segunda mão”, afirma.

Tabelado. O avanço da inflação provocou outro efeito que pode parecer familiar aos brasileiros que viveram o fim da década de 80: a obsolescência precoce de cardápios impressos. Muitos restaurantes da capital venezuelanas desistiram do “luxo” e passaram a utilizar apenas lousas nas quais os preços são atualizados conforme o ritmo da inflação.

Outros estabelecimentos, que são obrigados pelas circunstâncias a terem menus impressos, adotaram uma tabela codificada, atribuindo preços como “C-34” a produtos. A esses cardápios é adicionada uma pequena tabela à parte, impressa com maior frequência, atualizando os valores das mercadorias.

Escalada. Economistas venezuelanos dizem que o país já vive um processo hiperinflacionário desde o fim de 2016, quando a alta dos preços superou 50% ao mês. O fato de não haver gatilho salarial no país – como no Brasil e outros países sul-americanos durante os anos 80 – traz um fenômeno diferente. Se por um lado a ausência do reajuste de salários não eleva ainda mais os preços, por outro o poder de compra do trabalhador é ainda mais afetado. “Não é exatamente uma hiperinflação como as dos anos 80, mas de certa forma é mais cruel, pois o poder de compra do venezuelano é muito mais castigado sem o gatilho”, disse o economista Orlando Ochoa. 

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