REUTERS/Agustin Marcarian
REUTERS/Agustin Marcarian

HQ conta ditadura argentina a jovens

Com linguagem que se conecta a geração que cresceu após esse período, artistas buscam manter viva memória dos horrores do período, quando milhares de pessoas foram presas, torturadas ou desapareceram no país

Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2019 | 09h46
Atualizado 08 de maio de 2019 | 08h49

BUENOS AIRES - Dois artistas da Argentina buscam manter viva a memória dos horrores sofridos durante o a última ditadura militar do país (1976-1983) - que deixou cerca de 30 mil desaparecidos, de acordo com estimativas de entidades de direitos humanos - utilizando o formato de história em quadrinhos (graphic novel) para alcançar a geração que cresceu após esse período.

O livro Esma, sigla em espanhol para Escola Superior de Mecânica da Marinha – onde funcionou um centro clandestino de detenção e tortura –, do jornalista Juan Carrá e do ilustrador Iñaki Echeverría, tem três objetivos: contar a história, destacar a resistência e não naturalizar o horror daquele período.

“Não tivemos parentes desaparecidos durante a ditadura, mas isso não significa que não nos sintamos comprometidos com a memória desse período. Por isso, nos comprometemos a falar sobre essa parte de nossa história da forma que sabemos fazer melhor, que é contar histórias”, disse Carrá em entrevista ao Estado.

O enredo é contado através dos olhos de um jornalista fictício que tem de cobrir um julgamento relacionado ao centro de detenção, um dos aparatos repressivos do governo militar, que ocupa um espaço importante e doloroso na história da Argentina.

Sobre a escolha do formato de graphic novel, Carrá disse ter sido algo pensado para poder usar a linguagem das histórias em quadrinho ao mesmo tempo em que trata de um assunto sério. “Esse livro e essa linguagem em particular adicionam um olhar que coloca em foco o horror da ditadura para que atinja as novas gerações de uma forma mais atraente”, explicou.

Outro fator que contribuiu para a decisão foi o fato de nem ele nem Iñaki terem encontrado nada parecido no país. “(Graphic Novel) é um gênero que gostamos para contar histórias e também nos permite chegar a um público mais jovem e para o qual julgamos ser importante manter viva essa memória.”

À agência Reuters, Echeverría à disse que sua geração foi “completamente atravessada pela ditadura, foi educada pela ditadura”. “É uma decisão política escrever um livro sobre a Esma, sobre os julgamentos da Esma, então você deve fazer isso adequadamente. Se você for se sujar na lama, então fique bem sujo para ter a certeza de que você fez isso seriamente.”

Recepção e futuro

Lançado no museu e memorial criado no mesmo prédio que abrigou a Esma durante a ditadura, o livro foi bem recebido, segundo o autor. “Fizemos uma apresentação emocionante na qual estiveram presentes sobreviventes e a promotora que levou adiante o julgamento real”, explicou.

Sobre possíveis continuações, em formato e linguagem similares, Carrá disse que tem várias ideias que poderiam ser desenvolvidas, de outros momentos marcantes dos anos de chumbo da ditadura argentina, “mas por enquanto estamos focados na história atual, que foi lançada há menos de um mês”.

Ele também disse desejar que o livro seja traduzido para outros idiomas, como o próprio português, para que possa chegar a um público maior, apesar de ainda não haver nada concreto nesse sentido. “Será muito gratificante para nós se isso se tornar realidade.” / COM REUTERS

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