História secreta de expurgo em Cuba inclui espionagem e fofoca

Em conversa gravada por lobista, Roque Pérez e Lage fizeram piada de Fidel

Ian Urbina, THE NEW YORK TIMES, HAVANA, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

A história por trás da queda, há um mês, do chanceler cubano Felipe Pérez Roque e do vice-presidente Carlos Lage, dois dos mais destacados integrantes da cúpula do regime comunista da ilha, envolve ligações suspeitas desses dirigentes com um lobista, gravações de conversas comprometedoras mantidas pelos três em uma fazenda e um provável incidente diplomático com a Espanha que os dois países negam enfaticamente. O escândalo, abafado pelo governo, foi o pano de fundo de uma das maiores reformulações nos altos escalões do poder das últimas décadas em Cuba. Na época, o presidente cubano, Raúl Castro, justificou o afastamento de Pérez Roque e de Lage - o primeiro, jovem promessa de renovação na cúpula do Partido Comunista; o segundo, até então considerado o czar da economia -, além de outros dirigentes ligados aos dois, como uma tentativa de enxugar o governo. Os detalhes da queda dos dois caciques parecem saídos de um romance barato de espionagem. Ambos se relacionavam com um cidadão cubano, Conrado Hernández, que gravava secretamente suas conversas durante as festas em sua fazenda. Algumas das gravações, descobertas recentemente pelas autoridades cubanas, continham críticas enérgicas e piadas vulgares sobre líderes do governo.Hernández servia de ligação entre o governo cubano e empresas do País Basco, na Espanha. Ele está preso há mais de um mês, segundo funcionários cubanos, por supostamente passar as gravações ao serviço secreto espanhol - afirmação que a Embaixada da Espanha em Havana desmente categoricamente.Os problemas de Hernández começaram em sua fazenda, em Matanzas, onde ele, Pérez Roque e Lage costumavam reunir-se para beber e jogar. Durante pelo menos uma dessas reuniões, que foram gravadas no início de fevereiro, a conversação foi descambando para um tom grosseiro e os homens começaram a fazer piadas vulgares a respeito da idade e da saúde de Fidel e sobre a capacidade política de Raúl, segundo dois funcionários cubanos.PASSAPORTE DIPLOMÁTICOEmbora não esteja claro o motivo da prisão de Hernández, a polícia invadiu seu escritório onde encontrou as gravações e um passaporte diplomático não autorizado que, segundo os funcionários cubanos, lhe havia sido dado por Pérez Roque. Ele foi preso em 14 de fevereiro no aeroporto de Havana.Em 2 de março, Raúl anunciou a reestruturação do governo e, quatro dias depois, convocou uma reunião para explicar seus atos aos seus 20 funcionários de alto escalão. Em termos gerais, ele descreveu as provas de que dispunha contra os dois e mostrou algumas partes da gravação.Na prática, o expurgo mostra que, com Raúl, a política e a tomada de decisões provavelmente permanecerão tão centralizadas e rigorosamente controladas quanto na época de seu irmão, Fidel. Em vez de desmantelar a estrutura socialista de Cuba, Raúl tenta aparentemente fazer com que ela funcione de modo mais eficiente. Assim, Raúl teria aproveitado o escândalo para livrar-se dos dois antes do congresso do partido, no fim do ano - o primeiro em muitos anos no qual um líder cubano terá de conseguir apoio para seus projetos. Com isso, ele quer aparentemente consolidar o controle da economia, que está em frangalhos, e obter o diálogo de Cuba com os EUA, que se mostra possível no governo de Barack Obama.CEGUEIRANas ruas de Havana as pessoas parecem alheias às intrigas políticas. "A política aqui é um esporte cujos espectadores são todos cegos", comentou um sujeito que varria a calçada no Malecón. "Todos sabem que as coisas estão acontecendo. Não se sabe ao certo o quê. Portanto deixamos de olhar."O cubano comum reclama que houve poucas melhoras na economia, e elas são insuficientes. Fornos de micro-ondas, aparelhos de DVD e celulares agora podem ser encontrados nas lojas, mas a maioria dos cubanos não tem condições de adquiri-los. Os salários permanecem baixos, os preços dos alimentos, altos, e as habitações são escassas. Em 2008, o turismo cresceu, mas o preço do principal produto de exportação de Cuba, o níquel, caiu 41%. "Somente a abertura da ilha para o turismo americano e o fim do embargo terão um impacto ponderável", afirmou Luis René Fernández, especialista em política externa da Universidade de Havana. Muitos cubanos depositam suas esperanças, no que se refere à economia, na possibilidade de Obama abrandar as restrições impostas há muito tempo às viagens das famílias e às remessas para Cuba, o que deverá anunciar nos próximos dias.Algumas companhias espanholas já têm uma sólida presença econômica na ilha e são fortes as relações entre os dois países. Mas as recentes acusações contra Hernández complicaram as questões diplomáticas. No final da semana passada, funcionários espanhóis enviaram uma delegação a Cuba para conversar com as autoridades a esse respeito.

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