Histórico da busca por autonomia remonta ao século 9

CENÁRIO: Andrei Netto

O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2014 | 02h02

A cronologia da Escócia é a história de diferentes povos e tribos (pictos, bretões, escotos, anglos, vikings), da fusão de diferentes culturas e reinos (Fortriú, Fib, Gododdin, Strathclyde, Dal Riada) e da relação histórica de amor e ódio com um vizinho: a Inglaterra. Sua denominação - "Escócia", o "país dos escotos" - e seu primeiro Estado unificado e independente, o Reino da Escócia, datam da Alta Idade Média, por volta do século 9. Nessa época, se intensificaram as relações políticas - ora de sujeição, ora de guerras, ora de união casuística - entre o norte e o sul.

Em 924, ainda na aurora da Escócia, Constantino II, rei dos escotos e dos pictos, reconheceu o soberano anglo-saxão Eduardo, o Velho, rei de Wessex, como "pai e senhor", estabelecendo uma relação de hierarquia entre os dois reinos. Três anos depois, Athelstane, filho de Eduardo, fundaria o Reino da Inglaterra. A partir de então, outros soberanos escoceses reconheceriam a autoridade do soberano inglês. Em 1290, o Tratado de Birgham selou pela primeira vez a união de Inglaterra e Escócia, dois países diferentes e autônomos, em um único reino, sob o comando de Eduardo I.

Essa união foi possível graças ao casamento arranjado entre Eduardo I e a única herdeira do trono escocês, Margarida, então com 9 anos. A morte precoce da futura rainha escocesa, porém, serviu ao rei inglês como oportunidade para pronunciar, em 1292, a Escócia como um país vassalo da Inglaterra. Esse episódio deu origem às guerras de independência da Escócia, a primeira entre 1296 e 1328, comandada pelo herói nacional William Wallace - cuja história é contada no filme Coração Valente.

Em 1314, os escoceses, liderados por Robert Bruce, venceram a Batalha de Bannockburn, confirmando a independência da Escócia em relação à Inglaterra, reconhecida pelo Tratado de Edimburgo-Northampton, em 1328. Um segundo conflito aconteceria entre 1332 e 1357 e daria origem aos acordos entre a Escócia, em luta pela sobrevivência, e a França, na chamada Auld Alliance - ou "Velha Aliança" - que tinha como objetivo conter a Inglaterra.

No século 17, uma União das Coroas foi recriada pelo escocês James VI e I, rei da Escócia e da Inglaterra, mas os dois países mantiveram seus próprios parlamentos e sistemas judiciários. Em meio a guerras, invasões e conchavos, a Escócia persistiria independente até a unificação pacífica, com a criação da Grã-Bretanha por meio dos Tratados de União, em 1707. Para a Inglaterra, o acordo serviu para estabilizar o norte da ilha e evitar que novas alianças contrárias aos interesses de Londres fossem assinadas por Edimburgo. Para a Escócia, a unificação assinada pelo Parlamento - mas contestada pela opinião pública - foi uma forma de superar uma crise financeira brutal.

Se em meio aos escoceses a ideia da independência sempre permaneceu latente, a contestação voltou a ganhar força em 1853, com o movimento pela recriação do Parlamento escocês e pela devolução de autonomia. Nos anos 60, com o declínio do imperialismo britânico, teve início a atual onda independentista e um primeiro deputado do Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla em inglês) foi eleito ao Parlamento britânico em 1967. Em 1974, o partido reuniu 30% dos votos escoceses, sempre empunhando a bandeira da devolução de poderes. Cinco anos depois, um primeiro referendo indicou a vitória do "sim" pela independência, com 52% dos votos válidos, mas a baixa participação (63,6%) impediu o projeto de seguir em frente.

Nos anos 80 e 90, o Partido Conservador britânico bloqueou a maior parte dos projetos pela devolução de poderes a Edimburgo. Em 1997, John Major, primeiro-ministro conservador em busca da reeleição, fez campanha com o slogan "72 Horas para Salvar a União", mas foi derrotado por Tony Blair.

O trabalhista aceitou então a recriação do Parlamento escocês (ocorrida em 1999), após plebiscito com 74,3% de aprovação. Reformado, o Parlamento escocês elegeu a figura emblemática de Alex Salmond, líder independentista de centro-esquerda, como primeiro-ministro da Escócia. Nessa posição, o chefe do SNP convenceu o premiê britânico, David Cameron, a aceitar a realização de um plebiscito "justo, legal e decisivo" sobre o futuro da Escócia, em 2014.

Esse futuro chega na quinta-feira.

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