Hitler ouvia música de russos e judeus

Coleção secreta de discos é revelada

Lee Glendinning, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2008 | 00h00

Hitler expulsou músicos russos e judeus das salas de concerto alemãs no Terceiro Reich, afirmou em seu livro Minha Luta que não existia uma cultura judaica própria e referiu-se aos russos como seres subumanos - mas, em segredo, costumava escutar a música composta ou executada por eles.Cerca de 100 gravações de gramofone que pertenceram ao líder nazista foram descobertas no sótão de uma casa nos arredores de Moscou, de propriedade de um ex-agente da inteligência soviética. A coleção mostra que, embora Hitler defendesse publicamente a música germânica ''''racialmente pura'''', seu gosto parecia estar mais de acordo com a música dos artistas que condenava.A paixão de Hitler por Richard Wagner é bem conhecida. Contudo, a coleção descoberta inclui discos com obras de Tchaikovski, Rachmaninoff e Borodin, desgastados e arranhados , o que demonstra terem sido muito executados. Um dos discos traz um concerto de Tchaikovski executado pelo violinista judeu Bronislaw Huberman. Enquanto Hitler (que, pelo que se dizia, precisava ouvir música para relaxar) escutava Huberman, o violinista era obrigado a fugir da perseguição nazista: deixou Viena em 1937 e foi declarado inimigo do Terceiro Reich. Discos com obras executadas pelo pianista judeu austríaco Arthur Schnabel também fazem parte da coleção. Há ainda muitas obras de compositores alemães e austríacos, entre eles Wagner, Beethoven e Bruckner.Lew Besymenski foi um funcionário da inteligência soviética que colaborou no interrogatório de generais nazistas capturados. Ele encontrou a coleção na chancelaria de Hitler em maio de 1945, quando, logo após a queda de Berlim, recebeu ordens para dar uma busca no prédio. Os discos estavam embalados em caixotes, provavelmente para ser levados para o retiro de Hitler em Obersalzberg, nos Alpes. Todos tinham a inscrição ''''Führerhauptquartier'''' (quartel-general do führer). Contudo, Hitler preferiu ficar em Berlim.Besymenski nunca mencionou essa coleção, com medo de ser acusado de saqueador. Ele tornou-se depois um historiador e disse ter participado da autópsia dos restos queimados do corpo do líder nazista, confirmando uma suspeita antiga de que Hitler tinha apenas um testículo. Semanas atrás, quando Besymenski morreu, aos86 anos, a coleção foi colocada à disposição da revista alemã Der Spiegel.Hitler escreveu que não existia uma cultura judaica independente, acrescentando: ''''As duas rainhas das artes, a arquitetura e a música, não ganharam nada dos judeus.'''' Ele chamou os russos de subumanos, dizendo que não tinham dado nenhuma contribuição para o mundo da cultura.A filha de Besymenski, Alexandra, disse estar indignada com a hipocrisia de Hitler quanto a suas preferências musicais: ''''Foi uma farsa total. Milhões de eslavos e judeus morreram por causa da ideologia racista dos nazistas.''''

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