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Hoje nos EUA, filho de Khruchev defende decisão de enviar mísseis

Primogênito do ex-líder soviético diz que seu pai conseguiu o que queria: proteger Cuba e obter o respeito dos EUA

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo,

29 de setembro de 2012 | 18h52

PROVIDENCE, ESTADOS UNIDOS - Existe ainda um Khruchev convencido de que enviar mísseis a Cuba foi uma decisão acertada. O ex-premiê soviético Nikita morreu em 1971, porém, seu filho mais velho, Sergei, argumenta que, com a manobra que aproximou o mundo da guerra nuclear, seu pai conseguiu tudo o que queria: impedir uma invasão de Cuba e fazer com que os EUA reconhecessem o status de superpotência da URSS.  “Hoje não há mais Kennedy nem Nikita, mas Fidel ainda está por aí. Não é verdade?”, afirma em inglês carregado de sotaque russo, para depois cair na gargalhada.

 

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Khruchev, o filho, conversou por telefone com o Estado da cidade de Providence, nos EUA, onde vive desde a dissolução do bloco socialista. Na URSS, trabalhou como engenheiro de computação e chefiou pesquisas para desenvolvimento de sistemas de mísseis. Hoje, aos 76 anos, ele é analista na área de segurança internacional na Universidade Brown.

“Depois da invasão da Baía dos Porcos (em abril de 1961), Fidel anunciou sua entrada no bloco socialista. Cada superpotência da Guerra Fria tinha a obrigação de proteger seus aliados. Sob essa lógica, Cuba representava para a URSS o que Berlim era para os EUA: um território pequeno, talvez sem importância estratégica, mas que se não fosse defendido representaria uma derrota moral e psicológica à superpotência”, afirma Sergei. Colocar mísseis em Cuba, completa, foi uma forma de seu pai mostrar que “estava falando sério”.

Além de garantir que os americanos não tentariam novamente invadir a ilha para derrubar Fidel, Moscou também conquistou, em outubro de 1962, o respeito de Washington por seu status de superpotência global. “A URSS passou a ser vista pelos EUA como ‘igual’. Os americanos não querem reconhecer o status de ninguém, nem da URSS, nem da Rússia, nem do Brasil. Portanto, se você quer ser levado a sério, você tem de desafiar o poder.”

O filho de Nikita gosta de falar sobre a relação que seu pai tinha com Kennedy e do respeito mútuo entre os homens mais poderosos dos anos 60. O presidente americano, bon vivant e galanteador, e o secretário-geral socialista, veterano da batalha de Stalingrado e conhecido pelas sapatadas na tribuna da ONU, tinham visões de mundo e valores opostos, explica. Mas descobriram que compartilhavam um objetivo maior: preservar a paz mundial.

“Meu pai viu que Kennedy era um interlocutor sério, com quem era possível chegar a acordos. Negociar com amigos não é uma negociação real, mas uma festa. O importante é negociar com os inimigos”, afirma Sergei. É essa a maior lição que o primogênito de Khruchev tira da crise de 1962. Mas os EUA, critica, não aprenderam nada.

“É preciso entender melhor seu inimigo, sem ficar impondo sanções a todos, mas conduzindo negociações de alto nível com eles para entender como satisfazer aos dois lados sem iniciar mais um confronto. O presidente George W. Bush lançou duas guerras e os EUA perderam ambas. Agora estão falando em guerra na Síria, no Irã, em todo lugar. Não aprenderam nada.” 

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