AFP PHOTO / EMMANUEL DUNAND
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Holanda diz que MH17 foi abatido por míssil russo na Ucrânia

Voo que realizava o trajeto entre Amsterdã e Kuala Lumpur foi derrubado há 15 meses; em Moscou, fabricante dos sistemas de defesa antiaérea BUK apresenta versão oposta, afirmando que tiro partiu de zona pró-Ucrânia

Andrei Netto, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2015 | 11h17

MOSCOU - O voo MH17 da Malaysian Airlines que caiu na Ucrânia em 17 de julho de 2014, deixando 298 mortos, foi abatido por um disparo de míssil de fabricação russa. A informação é a única consensual dentre as duas investigações realizadas pelo Conselho de Segurança (OVV), da Holanda, que faz a única apuração oficial, e pela fabricante de material bélico Almaz-Antey, da Rússia, que nesta terça-feira, 13, apresentou os resultados uma apuração paralela. Segundo os peritos holandeses, o tiro partiu de uma região dominada por separatistas pró-Rússia, apoiados por soldados e equipamentos enviados por Moscou.

As conclusões das duas investigações foram divulgadas nesta terça, quase que em simultâneo, em Amsterdã e em Moscou. Das duas, a mais importante é sem sombra de dúvida a realizada pelo OVV da Holanda, da qual participam peritos de 15 países. De acordo com essa apuração, o Boeing 777 que realizava o voo Amsterdã-Kuala Lumpur e trafegava pelo espaço aéreo ucraniano foi abatido na região de Donbass, no leste do país, próximo à fronteira com a Rússia, por um míssil terra-ar do tipo BUK, fabricado pela companhia Almaz-Antey. 

"O voo MH17 caiu após a detonação de uma ogiva no exterior do avião contra o lado esquerdo do cockpit", confirmou o diretor do Conselho de Segurança Holandês, Tjibbe Joustra. "Essa ogiva corresponde ao tipo de míssil instalado nos sistemas de mísseis terra-ar BUK." 

A investigação, no entanto, não aponta os culpados pelo tiro que provocou a explosão do avião. O relatório afirma apenas que se trata de um míssil 9N314M, utilizado pelas Forças Armadas da Rússia. Esse projétil poderia estar equipando os sistemas antiaéreos que, segundo o governo da Ucrânia, o dos Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foram fornecidos aos separatistas por ordem do presidente da Rússia, Vladimir Putin. 

O relatório foi preparado a partir das peças da aeronave recolhidas na região da queda, na Ucrânia. Com elas, a OVV remontou trechos do aparelho para estudar a forma como o Boeing 777 foi abatido. Segundo a apuração, a ogiva não explodiu em contato com a aeronave, mas à frente, à esquerda da cabine de comando, "metralhada" por milhares de projéteis que perfuraram a fuselagem. Esses projéteis atingiram também uma das turbinas e provocaram a despressurização, a perda de sustentabilidade e a desintegração do avião em pleno voo.

Centenas desses projéteis metálicos foram encontrados no corpo dos pilotos, que tiveram morte imediata. Quanto aos passageiros, o OVV afirmou ser impossível confirmar se eles permaneceram vivos até o choque com o solo, mas a posição de máscaras de oxigênio sugere que parte deles sobreviveu até instantes antes do contato. "É incerto afirmar em que exato momento os ocupantes morreram, mas é certo que o impacto com o solo não poderia deixar sobreviventes", afirmou Joustra.

O OVV protestou ainda contra o fato de que as autoridades internacionais não tiveram acesso irrestrito ao local do acidente, e por isso não puderam recolher todas as evidências necessárias para a investigação. Logo após a tragédia, a região foi isolada por soldados e milicianos pró-Rússia, que ditaram quando e em que circunstâncias os peritos poderiam ingressar na área.

A apuração holandesa pediu ainda a criação de uma "no fly zone", uma zona de exclusão aérea na região de Donbass, enquanto o conflito armado persistir.

Rússia. Em Moscou, a companhia russa Almaz-Antey, fabricante dos sistemas de defesa antiaéreo convidou 250 jornalistas da imprensa internacional, inclusive o Estado, para divulgar um relatório alternativo no qual confirma que um míssil BUK derrubou o avião. Mas, em contraste com as autoridades holandesas, a direção apresentou simulações da explosão que, segundo ela, embasam a tese de que o projétil que atingiu o aparelho era do modelo 9M38, que não seria mais fabricado desde 1986, mas ainda equiparia as Forças Armadas da Ucrânia. A informação insinua que teriam sido os ucranianos que derrubaram o aparelho. A empresa afirma ainda que, pelo ângulo de ataque dos projéteis sobre a carenagem, seria possível afirmar que o disparo aconteceu de uma região na qual havia tropas ucranianas. 

Questionado sobre a parcialidade do relatório, Yan Novikov, diretor-geral da Almaz-Antey, refutou estar acusando as forças ucranianas pelo desastre. "O nosso objetivo não era determinar quem estava na região, mas de onde foi lançado e qual o tipo de munição", argumentou.

Segundo a companhia - que sofre embargo econômico ocidental em razão do conflito na Ucrânia -, as conclusões russas não foram levadas em consideração em Amsterdã. "As experiências de campo que realizamos comprovam nossas simulações matemáticas, mas infelizmente nossas conclusões não foram incluídas no relatório holandês", protestou Mikhail Malyshevskiy, conselheiro da Chefia de Design da Almaz-Antey.

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