Holanda, França e o déficit de paixão da União Europeia

Análise: Gilles Lapouge

É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2012 | 03h08

Há muito tempo não se viam tantas bandeiras francesas em Paris e em outras cidades da França. Sempre que um candidato fazia um pronunciamento, as ruas se cobriam de azul, branco e vermelho. Era o único ponto em comum entre os de extrema direita, socialistas ou centristas. No entanto, em parte nenhuma se via a bandeira da União Europeia, tão bonita, com seu fundo azul pontilhado de estrelas douradas.

É compreensível que Bruxelas, a capital da UE, esteja mal-humorada. Pouco importa se o vencedor do segundo turno for François Hollande ou Nicolas Sarkozy. O fato mais grave é que a verdadeira vencedora foi a corrente antieuropeia. Juntos, a extrema direita de Marine Le Pen, a extrema esquerda de Jean-Luc Mélanchon e os soberanistas de Dupont-Aignon obtiveram 32,5% dos votos.

Em Bruxelas, os europeus tentam se acalmar. O desamor pode ser explicado pela crise: a Grécia de cabeça para baixo, a Espanha asfixiada, a Itália extenuada e os outros países pálidos como papel. Mas a economia não explica tudo. A Europa sofre também de um déficit de paixão. Ninguém mais a deseja, coitada. O bloco que esmaga os países mais variados há 50 anos não faz ninguém mais sonhar. As pessoas começam a entender que um país não é uma construção política. É uma história, uma memória, o ruído do vento pela manhã, as cores do entardecer no outono.

Há 50 anos, a "nação" era ridicularizada pelos jovens, pela esquerda. Hoje, ela retorna gloriosa. Um homem como Régis Debray, o maior pensador francês atual, que não é nenhum reacionário, considera a nação como a coluna vertebral de sua filosofia. Durante a campanha eleitoral, o ultraesquerdista Mélanchon recordou todos os dias a memória da França. E Marine Le Pen estava sempre envolta nas cores da bandeira.

Evidentemente, existem também fatores econômicos. Nesse sentido, a importância não é a eleição na França, mas a queda do governo holandês, que nem mesmo chegou a adotar a política do rigor que os sábios de Bruxelas impuseram a todos os membros da UE. A Holanda não faz parte dos países do Clube Med, como gregos, italianos, espanhóis e franceses vaidosos. Os holandeses são o "lado virtuoso" da Europa. O país dos pôlderes, das vacas, do trabalho e dos bancos cansou-se da austeridade à qual o continente foi condenado.

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