Evert Elzinga/EFE/EPA
Evert Elzinga/EFE/EPA

Holanda pede desculpas por seu papel no Holocausto

É a primeira vez que o governo se desculpa pela perseguição de judeus na Holanda e sua deportação em massa para os campos da morte; dos 140 mil judeus no país, 102 mil foram mortos

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2020 | 20h32

AMSTERDÃ - O primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, pediu desculpas neste domingo, 26, em nome do governo pela perseguição de judeus na Holanda durante a 2ª Guerra.

"Enquanto os últimos sobreviventes ainda estão conosco, peço hoje desculpas em nome do governo pelas ações das autoridades da época", declarou Rutte, diante de representantes da comunidade judaica, figuras políticas e sobreviventes.

O primeiro-ministro liberal falou em Amsterdã durante uma homenagem nacional às vítimas do Holocausto, na véspera do 75º aniversário da libertação do campo de extermínio nazista de Auschwitz pelo Exército Vermelho em 27 de janeiro de 1945.

É a primeira vez que o governo se desculpa pela perseguição de judeus na Holanda e sua deportação em massa para os campos da morte. Dos 140 mil judeus no país, 102 mil foram mortos. "Faço isso sabendo que é impossível colocar palavras em algo tão grande e horrível quanto o Holocausto", disse Rutte, usando uma kipá azul.

"Perdi tudo na guerra", disse Zoni Wisz, sobrevivente de 82 anos, cujos pais, irmãos e irmãs morreram em campos de extermínio.  "Não deveriam morrer por nada. Neste sentido, é importante que haja um pedido de desculpa. E aceitei-a. Uma pena que tenhamos esperado por 75 anos", acrescentou Weisz, que estava na cerimônia.

Sem 'amplo apoio' para justificar pedido de desculpas

Em 2012, foram lançados pedidos, principalmente pelo líder do Partido pela Liberdade (PVV), o deputado de extrema direita Geert Wilders, para que o governo se desculpasse pelo papel do Estado holandês na perseguição de judeus sob ocupação alemã.

Mas Rutte, já primeiro-ministro, estimou naquele momento que não havia informações suficientes sobre a ação do governo na época, nem "amplo apoio suficiente" para justificar um pedido de desculpas oficial. 

Em 2000, o então primeiro-ministro Wim Kok havia se desculpado pela "recepção gelada" reservada aos sobreviventes dos campos em seu retorno à Holanda, ocupada pelos alemães de 1940 a 1945.

"Nossas instituições governamentais não agiram como guardiões da justiça e segurança", disse o primeiro-ministro neste domingo, acrescentando que "muitas autoridades holandesas haviam cumprido as ordens dos ocupantes".

"As amargas consequências da elaboração de registros (de judeus) e expulsões não foram suficientemente reconhecidas, nem reconhecidas a tempo", disse Rutte.

"No geral, fez-se muito pouco. Muito pouca proteção. Muito pouca ajuda. Muito pouco reconhecimento", acrescentou. "Setenta e cinco anos após Auschwitz, o antissemitismo ainda está entre nós. É exatamente por isso que devemos reconhecer completamente o que aconteceu na época e falar em voz alta."

O dia escolhido pelo governo holandês para reconhecer as "falhas" das autoridades durante a guerra é muito simbólico, observa Frank van Vree, diretor do Instituto Holandês de Documentação de Guerra (NIOD). "Este é um momento apropriado", disse ele, citado pela televisão pública holandesa NOS.

"Os primeiros passos para pedir desculpas já foram dados no passado, acho que não é coincidência que é precisamente durante esta comemoração, 75 anos após Auschwitz, que as desculpas são pronunciadas", estimou. / AFP

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