Fábio Lúcio/Estadão
Fábio Lúcio/Estadão

Holandesa de 90 anos luta em SP para manter memória de sua amiga Anne Frank viva

Nanette Blitz Konig será a homenageada em um evento no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto nesta quarta-feira

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2019 | 05h00

Nas últimas duas décadas, a holandesa Nanette Blitz Konig, de 90 anos, tem se dedicado a relatar os horrores que testemunhou na 2ª Guerra, em especial sua relação com uma importante personagem. 

Nanette foi amiga de escola de Anne Frank e as duas estudaram juntas no Liceu Judaico, em 1941, em Amsterdã. "Ela era muito inteligente e gostava de escrever", relembra a amiga, que até a idade compartilhava com Anne. Nesta quarta-feira, 12, ela faria 90 anos. Justamente nesta data, Nanette será a homenageada em um evento no Memorial da Imigração Judaica e do Holocausto, em São Paulo. 

Antes da guerra, as duas viviam o cotidiano de jovens estudantes judaicas em Amsterdã. Com a invasão nazista da Holanda, Nanette e sua família foram levadas para campos de concentração e extermínio, nos quais apenas ela sobreviveu. Anne e sua família, por sua vez, conseguiram se esconder por dois anos em um quarto oculto antes de serem entregues à polícia alemã por uma denúncia anônima, nunca esclarecida. 

Nanette foi uma das últimas pessoas próximas a Anne a vê-la viva. As duas se reencontraram no campo de Bergen-Belsen em 1945 poucos meses antes do fim da guerra e de Anne morrer acometida pelo tifo. Nanette conta ter visto a amiga e sua irmã Margot através de arames farpados que separavam o campo. Por não aguentar mais tantos piolhos nas roupas, Anne estava enrolada apenas em um cobertor.

O tifo também atingiu Nanette. Quando foi resgatada, a holandesa, que também contraiu uma tuberculose, pesava menos de 30 quilos e precisou ficar três anos em tratamento médico. Internada em um hospital, recebeu a visita do pai de Anne, Otto Frank, que queria saber qualquer coisa sobre o que acontecera à filha. Mais tarde, ele deu a Nanette um exemplar do livro escrito pela filha, que se tornaria um dos mais importantes relatos do Holocausto. 

Salva pelo major britânico Leonard Berney, Nanette reencontrou parentes e reconstruiu a vida na Inglaterra. Acreditando que a ajudaria a superar o trauma da guerra, sua família pediu que ela nunca mencionasse o que aconteceu. 

As lembranças ficaram guardadas até que Nanette conheceu John, um húngaro que vivia em Londres e se tornaria seu marido, pai de seus três filhos e grande confidente. O casal vive em uma calma e arborizada rua de São Paulo desde os anos 50, quando se mudou para o Brasil para viver perto de parentes dele. 

"Estava um lindo dia de sol, desses poucos que se tem em Londres, quando eu a vi pela primeira vez", lembra o dedicado marido, que delicadamente ajuda a mulher a contar na entrevista ao Estado os detalhes das histórias que passou a conhecer como se fossem suas e que agora começam a faltar na memória de Nanette. 

Essas mesmas histórias Nanette usou para falar da importância de se combater o racismo e a discriminação a jovens estudantes, especialmente em um grupo de escolas públicas que levam o nome da amiga. “Eles se identificam”, relata Nanette ao falar sobre os depoimentos que recebe de estudantes das periferias, lembrando episódios de discriminação e racismo. 

Parte de suas histórias também estão no documentário The Classmates of Anne Frank, de Theo Coster, que será exibido na homenagem desta quarta-feira, uma iniciativa do Instituto Plataforma Brasil e Casa Anne Frank em parceria com a Confederação Israelita no Brasil (Conib), Federação Israelita do Estado de São Paulo, Consulado-Geral dos Países Baixos. O documentário conta a história de cinco jovens sobreviventes da classe de Anne, incluindo Coster.

Questionada sobre por que ainda se esforça para lembrar a história de Anne e do Holocausto, Nanette é taxativa: "Porque é necessário".

 

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