Holandesa é a face estrangeira mais conhecida das Farc

Tanja Nijmeijer passou mais de 10 anos na selva, lutando ao lado dos rebeldes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia

Jonathan Stock, Der Spiegel, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2014 | 02h13

HAVANA - Recentemente, a holandesa Tanja Nijmeijer se integrou à equipe negociadora das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia na negociação de paz em Cuba. Até pouco tempo, ela tinha dois destinos possíveis: uma sepultura na selva colombiana ou uma cela de segurança máxima nos EUA. Tanja jamais teve dúvidas quanto a sua escolha. "Morrerei na selva", diz.

Tanja é procurada pela Interpol por sequestro, uso de arma de fogo em um crime violento e apoio a uma organização terrorista. Ela chega atrasada ao nosso encontro em um hotel de Havana. Quando a porta do saguão se abre, ela se aproxima com um sorriso. "Como vai funcionar?", pergunta. Tanja quer saber qual das cinco línguas que ela fala será usada na entrevista e depois pede um cappuccino.

Aos 36 anos, Tanja tem olhos ternos e sobrancelhas bem feitas, usa brincos e um vestido estampado com flores. Suas mãos tremem durante a primeira hora, enquanto fuma e fala sobre como fazer uma fogueira sem fumaça na selva.

Por muito tempo, foi impossível falar com Tanja. Ela vivia na selva e passava a maior parte do tempo fugindo do Exército colombiano. Foi considerada perdida e, muitas vezes, dada como morta. Um dia, mensagens de rádio chegaram ao campo onde estava com ordens para que deixasse o local. Deram-lhe o prazo de seis dias para chegar a um ponto secreto, cujas coordenadas estavam na mensagem.

Depois de caminhar por trilhas na selva e pelas montanhas, ela foi resgatada por um helicóptero da Cruz Vermelha, levada para Bogotá e depois para Cuba. Figura emblemática das Farc, Tanja chegou a Havana depois de 10 anos sem acesso a carros, internet, celulares ou máquinas automáticas. Ali, soube que faria parte de uma delegação da guerrilha designada para negociar um tratado de paz com o governo colombiano.

Sua tarefa era dar suporte à delegação porque fala inglês. Desde então, traduz comunicados, atualiza o site, envia tuítes e posta mensagens no Facebook do grupo rebelde. Além da morte e da prisão, uma terceira opção agora se abriu para o futuro de Tanja: a paz na Colômbia, encerrando a mais longa guerra civil do mundo, iniciada há 50 anos. Mais de 200 mil pessoas morreram, muitas nas mãos das Farc, cuja missão original era defender o direito dos pobres.

Guerrilha e governo negociam em Cuba desde novembro de 2012. O diálogo gira em torno de seis questões: reforma agrária, desarmamento da guerrilha, indenização para as vítimas de ambas as partes, fim do tráfico de drogas, futuro papel político das Farc e implementação do acordo. No entanto, ainda não foi estabelecido um cessar-fogo.

Nenhum estrangeiro chegou tão alto na hierarquia das Farc como Tanja. Às vezes, ela pensa sobre a vida que poderia ter levado. Uma casa na Holanda, três filhos, uma profissão burguesa. Ela silencia por um instante, enquanto observa tudo o que despreza no lobby do hotel: uma máquina de café expresso, um pacotinho de amendoins de US$ 4, Red Bull, um empregado com ar entediado de pé diante de um aquário. "Eu me sentiria muito frustrada hoje", diz.

Até se juntar às Farc e queimar seu passaporte, foram três fases. A primeira, uma coincidência. Em dezembro de 1997, Tanja tinha 19 anos. Ela abriu o jornal da faculdade e viu um anúncio buscando uma professora de inglês em Bogotá. Parecia interessante e candidatou-se. "Você sabe que há uma guerra na Colômbia", perguntou um funcionário da embaixada. "Não", respondeu Tanja.

O segundo passo foi dado porque sentiu-se culpada. Na Colômbia, deu aulas de inglês numa escola para crianças ricas. Quando deixava seu apartamento, sempre via desabrigados revolvendo o lixo e pessoas famintas perto dos shoppings de Bogotá. Um dia, sentada no ônibus, viu uma família caminhando em meio à sujeira. Uma das crianças dentro do ônibus apontou para a família e gritou: "Vocês são pobres, nós somos ricos". Tanja sentiu-se envergonhada. E começou a se questionar.

Procurou uma professora de matemática que havia conhecido. "Vocês colombianos não ficam tristes por viverem numa cidade onde alguns têm tudo e outros, nada?" A professora respondeu com outra pergunta: "E vocês, europeus, não se sentem mal por terem tudo ao passo que outros países não têm nada?". Ela não soube o que dizer.

Depois de passar um ano na Colômbia Tanja voltou para a Holanda. Lá, foi tomada por um frenesi estranho. Como revolucionária na Europa, suas opções eram limitadas. Um dia, ela disse aos pais que estava farta do capitalismo. "Tanja, você tem de olhar para a União Soviética para ver que o comunismo fracassou", disse o pai. "Sim", respondeu ela. "Mas talvez funcione em outra parte do mundo."

Tanja terminou a faculdade e retornou à Colômbia, onde encontrou-se com a professora. "Não quero mais ser uma espectadora", disse. Então, a professora lhe disse que era membro das Farc e a levaria até os rebeldes. Foi assim que ela entrou em contato com o grupo.

Tanja descreve a vida quotidiana na selva. "Sua mochila sempre deve estar preparada, pronta para uma partida. Tem de conter um mosquiteiro, uma barraca, uniforme, roupa de baixo, meias, um cobertor, duas garrafas de gasolina, arroz, feijão, lentilha, espaguete, açúcar, sal e farinha. Normalmente, são 20 quilos de alimentos na mochila, que pesa de 30 a 35 quilos."

Hoje, é como se Tanja estivesse num trem que fez um desvio e dirige-se para um destino desconhecido. Um ex-advogado das Farc diz que ela é "uma rebelde sem causa". Para um ministro colombiano, Tanja é "um ser humano despedaçado". O novo homem de sua vida, um soldado das Farc, diz que "ela é uma de nós". Mas, para seus pais, ela será sempre "nossa filha". / Tradução de Terezinha Martino

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