Hollande, antídoto a Merkel

A três dias do segundo turno das eleições presidenciais, o socialista François Hollande continua o favorito. No entanto, prudência! Numa eleição tão passional, um imprevisto de último minuto pode sempre ocorrer.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2012 | 03h05

Para vários vizinhos da França a vitória do socialista já está prevista. E é igualmente desejada. Por que? O fato é que o candidato socialista é visto como o antídoto de Angela Merkel. O que se espera é que ele solte a camisa de força com a qual Merkel e Sarkozy prenderam o corpo extenuado da Europa, com o risco de sufocá-la.

A Grécia é a primeira da fila dos partidários de Hollande. Segundo o jornal To Ehtnos, as primeiras fissuras já aparecem no muro da retórica orçamentária alemã. Bastou Hollande apresentar um programa econômico para se tornar o líder da "Europa do Sul".

No jornal El País, de Madri, José Ignacio afirma estar farto de ver a França de Sarkozy se dobrar diante dos diktats alemães. "Chegou a hora de dar um 'basta' a Berlim." Na Grã-Bretanha, Michael White, no Guardian, segue na mesma linha. "A vitória de Hollande não será uma revolução. Se for bem gerida, ela poderá ser um passo na boa direção para nós." Poderíamos nos alongar nessa antologia dos partidários europeus do candidato socialista. Claro que a maior parte inclui jornais ou políticos de esquerda. Mas o interessante não é o fato de a esquerda europeia tomar partido de Hollande. A novidade é que essa esquerda é unânime na crença de que o socialista poderá pôr fim aos programas de austeridade que fazem com que a Europa enfraqueça a passos largos. Sem dúvida é conceder ao candidato um grande poder.

O fato é que o remédio prescrito por Merkel e Sarkozy está em vias de "matar o doente" (segundo os gregos, os espanhóis e outros) e as pessoas se agarram a Hollande para que o Velho Continente mude de partitura. E se ofereçam meios de "crescimento" em vez de orquestrar a "deflação".

Esse desejo de crescimento não é novo. Há vários meses uma pequena música tenta substituir a sinfonia alemã. E o que diz essa música? Em vez de se consagrar exclusivamente à redução do endividamento e dos déficits, a Europa deve buscar o "crescimento" que, sozinho, alimentará as receitas fiscais e eliminará as dívidas.

Os que são contrários a Merkel dispõem de um argumento simples. Apesar dos planos de rigor, aplicados com heroísmo pelos europeus, a situação não melhora, mas piora. Europa, Grécia, Itália e mesmo Irlanda ou Holanda, enfim, por todo o lado, a austeridade tem tido efeitos medonhos.

Há cerca de dois anos, vários prêmios Nobel, dirigentes do FMI, editoriais do Financial Times, especialistas respeitados como Joseph Stiglitz, Paul Krugman e Dominique Strauss-Kahn vêm fazendo prognósticos. No New York Times, Paul Krugman escreve: "Em março, os dirigentes europeus assinaram um pacto orçamentário impondo a austeridade. Qualquer estudante de economia poderia prever o resultado; isso somente agravará a recessão". Hollande anunciou que, se eleito, exigirá uma renegociação desse pacto e quer completá-lo adicionando um componente: crescimento.

Merkel e Sarkozy já rejeitaram a ideia. Se for o caso, Hollande poderá impor mudanças, apesar de tudo? Não devemos ter ilusões: se é verdade que a austeridade insana imposta à Grécia é uma calamidade, nada garante que uma ação em favor do crescimento, que significa criar novos déficits, não produzirá outros danos igualmente perniciosos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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