Hollande e a guerra

François Hollande, quem diria? Com gorduras a mais na barriga, cabeça de comerciante de meias e dicção vacilante, ele seria a última pessoa que imaginaríamos em uniforme de batalha, examinando um mapa do Estado Maior como MacArthur ou Napoleão. No entanto, desde sábado, Hollande é o comandante-chefe. E lançou um ataque contra o vasto país saariano da África Central, o Mali.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2013 | 02h04

Hollande sempre afirmou que "não envolveria a França militarmente num combate". Um dos seus primeiros gestos foi retirar o contingente francês do Afeganistão. E o presidente, muito inteligente, sabe que de todos os cenários de guerra, o pior é um país como o Mali, ex-colônia francesa. Sempre há suspeita de "neocolonialismo", de um retorno da França à África.

Hollande sabe também que as expedições militares na África ou na Ásia são desastrosas. O Exército americano viveu a experiência no Vietnã, no Iraque com o pobre George W. Bush, no Afeganistão. E a França perdeu todas as guerras contra antigas colônias, da Indochina à Argélia.

No entanto, ele decidiu bombardear o Mali e, depois de três dias, vê-se obrigado a aumentar a força de combate. Como explicar a conversão de Hollande? O fato é que a região pegou fogo. Os islamistas decidiram bruscamente sair do norte do Mali, desértico e grande como a França, e se dirigir ao sul, até a capital Bamako. Ficou claro que o país cairia nas mãos deles, bem guarnecidos, bem formados, de uma coragem terrível e ávidos de mártires. E armados até os dentes, pois se apossaram do enorme arsenal da Líbia. Tanques, canhões e armas foram transportados para o Mali quando o coronel Muamar Kadafi foi derrubado pelas forças da Otan a pedido do presidente François Sarkozy e de seu "inspirado" conselheiro, Bernard-Henri Lévy.

Então, Hollande decidiu-se pela guerra. Adotou algumas precauções: obteve sinal verde do Conselho de Segurança da ONU e entendeu-se com a Argélia para sobrevoar seu território. Sem dúvida, ele esperava que outras nações apoiassem Paris. Mas o apoio foi da boca para fora, oferecendo alguns aviões de reabastecimento, recursos logísticos e hospitais de campanha.

Por que Hollande entendeu que era necessário salvar o Mali? O Mali é um país imenso, miserável, semidesértico, no centro do Sahel. Faz fronteira com Argélia, Mauritânia, Senegal, Guiné, Costa do Marfim, Burkina Fasso, Níger. Todos esses países são permeáveis. Suas fronteiras são mal fiscalizadas. Seus governos são fracos (exceto Argélia e Senegal). No caso de o Mali ser submetido à lei de ferro do islamismo, o vírus poderá atravessar as fronteiras e ser criado um império islâmico numa área imensa do continente africano. A partir daí, o terror poderá ser exportado e atacar, quando necessário, o Mediterrâneo e a França.

São dois os perigos: o primeiro é de que a operação se prolongue e o Exército francês fique preso num atoleiro. O segundo é o que ocorrerá se o Mali for libertado dos islamistas. Será preciso reconstruir o país, mas como? Nada é mais difícil. Iraque e Afeganistão são testemunhas disso.

As sutilezas e contradições que nutrem a diplomacia estão presentes. Na Síria, o Ocidente e a França apoiam os insurgentes contra Bashar Assad. Ora, a insurgência é formada por três quartos de democratas e um quarto de islamistas, amigos dos grupos que se pretende erradicar no Mali. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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