Hollande e socialismo

Eis a esquerda no poder. Ou melhor, no poder, o Partido Socialista. O governo que foi formado pelo presidente François Hollande e pelo primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault abrange, na sua quase totalidade, socialistas.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2012 | 03h04

Enquanto Sarkozy selecionou nomes também em outros partidos para compor seu governo, apropriando-se voluptuosamente de socialistas, Hollande abasteceu-se quase unicamente no "viveiro" de seu partido. Seria essa uma garantia de uma equipe homogênea, unida, voltada para um mesmo objetivo e dócil? Com certeza, não.

O Partido Socialista é enorme. Todas as sensibilidades ali se cruzam. No caso da Europa, por exemplo, embora a tendência seja a favor da integração, existem oposições. O novo ministro das Relações Exteriores é Laurent Fabius. Ora, em 2005, Fabius foi o líder do grupo dentro do partido que exigiu votar "não" à ratificação do tratado constitucional europeu.

Portanto, temos um "antieuropeu na pasta das Relações Exteriores. Devemos concluir que o Partido Socialista tornou-se eurocético? Absolutamente. O novo presidente e seu primeiro-ministro, há dois dias, dão declarações de lealdade à União Europeia. O encontro de Hollande com a chanceler alemã, Angela Merkel, não deixou a mínima dúvida sobre esse aspecto.

Se continuarmos a auscultar os novos ministros, observamos que a anomalia identificada no caso de Fabius não é isolada. Ao lado de um ministro das Relações Exteriores, há um "ministro delegado para Assuntos Europeus". Trata-se de Bernard Cazeneuve, um homem talentoso. Em 2005, ele também defendeu o "não" ao tratado constitucional europeu.

Estranho. Os dois futuros responsáveis pela diplomacia francesa, Laurent Fabius, no Quai d'Orsay, e Cazeneuve, no Departamento de Assuntos Europeus, foram políticos contrários ao tratado europeu. E não é tudo.

A ministra da Justiça, Christiane Taubira também batalhou em 2005 contra o tratado. Assim como também o exuberante Arnaud Montebourg, atual ministro da Recuperação Produtiva, que não só fez parte do grupo de inimigos do tratado europeu, mas tem se declarado ruidosamente contra a globalização.

Face a esse nó de contradições, podemos responder que a linha da diplomacia francesa será definida por Hollande e Ayrault. Fabius, Cazeneuve e outros simplesmente ficarão encarregados de implementar essa política.

Por isso, avançamos em uma outra hipótese: em 2005, os defensores do "não", que votaram contra o tratado, não eram hostis à Europa, mas a uma "determinada Europa", uma Europa liberal, submetida à concorrência e ao mercado. De acordo com eles, a integração europeia seria o triunfo do liberalismo econômico, que, a seus olhos, era detestável.

Se essa análise estiver certa, então podemos imaginar que, dentro do Partido Socialista e no centro do governo de Hollande e Ayrault, uma doutrina comum reunirá os partidários do não, liderados por Fabius, aos europeus de Hollande: o desejo de uma Europa menos submissa ao mercado, ao mundo financeiro e à concorrência. De uma Europa que adicione às suas ambições econômicas um projeto político e mesmo, como afirmam com ênfase alguns socialistas, "um projeto de civilização". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO   * É CORRESPONDENTE EM PARIS

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