Hollande é uma unanimidade

Líder descontenta esquerda com uma guinada liberal e os conservadores com um affair

Elias Groll*, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2014 | 02h01

Ele é o presidente francês mais popular dos tempos modernos. Lutou para fazer caminhar a lenta economia do seu país. Na terça-feira, François Hollande encarou uma entrevista com 500 jornalistas para apresentar o plano com o qual pretende tirar a França - e sua presidência - do marasmo.

Infelizmente, ninguém o achou muito interessante. Na semana passada, a revista Closer publicou fotos do presidente entrando no apartamento da atriz Julie Gayet, de 41 anos. O fato provocou uma violenta tempestade na França e está tendo repercussões muito negativas para Hollande.

Valérie Trierweiler, há muito sua companheira e, portanto, tida como a primeira-dama da França, foi hospitalizada com uma "profunda crise de depressão". Por isso, quando Hollande enfrentou as câmeras na terça-feira, seus planos de reforma econômica não estavam exatamente no topo de sua agenda.

Depois de um discurso de 20 minutos, no qual apresentou medidas destinadas a melhorar o clima para negócios, Alain Barluet, presidente da Associação de Imprensa da Presidência, fez a Hollande a pergunta que não quer calar: "Valérie Trierweiler continua sendo a primeira-dama da França?"

"Todos passam por momentos difíceis em sua vida pessoal. É o que acontece conosco agora. É um momento doloroso", respondeu Hollande. "Mas me pauto por um princípio, a questão é de foro pessoal e deve ser tratada como tal. Não é esse o momento nem o lugar para comentários".

Com este floreio, Hollande conseguiu driblar em grande parte a questão. Alguns jornalistas voltaram ao ataque no decorrer da coletiva, mas, segundo a tradição do jornalismo francês, que costuma considerar a vida privada dos seus líderes como território proibido, a indagação sobre o saboroso affair do presidente com uma bela atriz mais jovem permaneceu em grande parte intocada.

Até agora, Hollande conseguiu esconder-se atrás da expectativa de respeito pela privacidade concedida comumente aos presidentes franceses, mas o escândalo contribuiu, pelo menos, para recalibrar as esperanças em relação ao homem. Antes, ele não passava de um socialista gordinho com fama de chato. Agora, seduz mulheres particularmente bonitas que, com certeza, não deveriam precisar do escândalo de dormir com o presidente francês. O mais grave é que o escândalo ameaça sobrepor-se aos esforços de Hollande de reinventar sua presidência. A França, segunda maior economia da zona do euro, luta para retomar sua posição após a crise . Até o momento, Hollande provou ser impotente para solucionar os problemas mais prementes da economia, principalmente um desemprego que chega a 12% da população economicamente ativa.

O programa econômico proposto por ele é, sem dúvida, mais chocante do que o fato de o presidente se servir de uma moto para ir a encontros amorosos tarde da noite. Hollande agora quer cortar os encargos sociais das companhias francesas no valor de 30 bilhões, e exigir que as empresas arquem com uma parcela menor da conta dos generosos benefícios sociais do país. Com isso, os gastos das empresas francesas se reduziriam em cerca de 5,4%. Em troca, espera que os empregadores prometam que passarão a contratar mão de obra de maneira mais agressiva.

No fim das contas, tudo isso não passa de um recuo humilhante para um presidente socialista. O pacote de reformas representa uma guinada para a direita para Hollande, e a esquerda não deve gostar nada. Por isso a entrevista foi eivada de perguntas sobre o tipo de socialismo que o presidente proclama exercer.

Evitado pela esquerda por abandonar seus princípios fundamentais, rejeitado por seu povo por não estimular a economia e ridicularizado na imprensa por ser apanhado com a boca na botija, Hollande agora é um homem que precisa desesperadamente de boas notícias.

Para piorar, o prazo de que dispõe para resolver seus problemas familiares é escasso. No início de fevereiro, ele viajará para Washington para um jantar com o primeiro casal americano. Supostamente, precisará de alguém que o acompanhe.

*Elias Groll é jornalista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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