Etienne Laurent/EFE
Etienne Laurent/EFE

Hollande enfrenta concorrência de premiê por candidatura na França

Cada vez mais isolado, presidente français agora tem como desafiante Manuel Valls no interior do Partido Socialista (PS); segundo pesquisas, nenhum pré-candidato de esquerda chegaria ao segundo turno nas eleições de abril de 2017

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

02 de novembro de 2016 | 05h00

PARIS - A cinco meses do primeiro turno das eleições presidenciais, o presidente da França, François Hollande, enfrenta um novo concorrente no seu próprio campo: seu primeiro-ministro, Manuel Valls. A disputa tácita entre o chefe de Estado e o chefe de governo pelo posto de candidato do Partido Socialista (PS) foi aberta depois que líderes do PS abandonaram o atual presidente, que enfrenta níveis recordes de impopularidade, lançando Valls como opção do partido. 

A razão do desentendimento foi a publicação do livro "Un président ne devrait pas dire ça…" ("Um presidente não deveria dizer isso…", na tradução livre), escrito pelos jornalistas Gérard Davet e Fabrice Lhomme, do jornal Le Monde. A obra foi concebida a partir de 61 horas de entrevistas exclusivas concedidas por Hollande aos dois jornalistas. O resultado foi um livro de mais de 600 páginas, marcadas por polêmicas que colocaram o presidente em rota de colisão com líderes de Partido Socialista. 

Um dos primeiros a demonstrar a incompreensão com o livro, que para muitos dessacralizou a função de presidente da república, foi Claude Bartolone, presidente da Assembleia Nacional. "É preciso muita explicação para compreender se ele realmente quer ser candidato", ironizou, acusando o presidente de ter dado um tiro no próprio pé.

Outro líder socialista, o senador e prefeito de Lyon, Gérard Collomb, já declarou voto ao ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, que deixou o governo Hollande há dois meses. "Um patrão não é patrão por decreto. Ele se impõe naturalmente", criticou.

A ira dos líderes socialistas motivou então Manuel Valls a demonstrar sua indignação em relação ao próprio chefe, assumindo uma postura de eventual pré-candidato do PS. Durante um voo realizado na semana passada, Valls afirmou a jornalistas ter sentido a "cólera" e a "vergonha" que o livro provocou entre militantes do partido. A partir de então, o premiê vem dando indiretas sobre a capacidade do atual presidente de liberar o partido em uma candidatura à reeleição. "É preciso ser responsável, leal ao seu partido político, é claro, e eu o sou", ponderou o premiê. "Mas é preciso ser lúcido e a franqueza é útil às vezes. Há um mal-estar", insistiu Valls, sem citar o nome de Hollande.

A contestação interna levou Hollande a responder, afirmando que "cada um deve fazer o seu trabalho". "Eu faço o meu, o primeiro-ministro faz o seu, e nós devemos resolver os grandes temas que preocupam os franceses", disse o presidente, minimizando: "O resto são comentários sobre comentários".

A disputa entre o presidente e seu primeiro-ministro levou o porta-voz do governo e ministro da Agricultura, Stéphane Le Foll, a sair em defesa de Hollande. "Sim, eu constato que há dúvidas entre os militantes", reconheceu, disparando a seguir: "O patrão é o presidente da República, que foi eleito em 2012". Horas depois Valls baixou o tom, afirmando ter respeito por Hollande, a quem chamou de "amigo", e defendendo que ninguém deve tentar "enfraquecer o presidente da república".

Mesmo com a reação do núcleo "hollandista", porém, a contestação no PS a uma candidatura de Hollande à reeleição não para de crescer. Para o cientista político Gérard Grünberg, especialista em esquerda do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), Valls acelerou o tempo político. "Com o livro, há um tumulto no Partido Socialista e Manuel Valls pensa que o presidente não está mais em condições de se candidatar à reeleição. Minha interpretação é de que ele quer ser o candidato desde já, se for possível", entende. "Ele abandonou Hollande." 

Nas prévias internas, o atual presidente tem 30% das intenções de voto dos socialistas, contra 28% do ex-ministro da Economia Arnaud Montebourg. No segundo turno das prévias, Hollande seria superado por 52% a 48%, segundo pesquisas. Já Valls não aparece nos cenários porque sua candidatura não vinha sendo cogitada. No entanto, suas chances não são muito melhores do que as do presidente. Nem Hollande, nem Valls aparecem por ora em condições de enfrentar o ex-primeiro-ministro Alain Juppé (Les Républicains, direita) ou a populista Marine Le Len (Frente Nacional, extrema direita), os dois favoritos até aqui. Pelos prognósticos atuais, todos os representantes do Partido Socialista ficariam fora do segundo turno das eleições presidenciais de 2017. 

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