Hollande faz visita-surpresa ao Afeganistão

Em uma viagem relâmpago, não prevista em sua agenda oficial, o presidente da França, François Hollande, visitou ontem o Afeganistão, onde confirmou o calendário de retirada das tropas francesas até o fim de 2012. Na visita, ele foi recebido pelo presidente afegão, Hamid Karzai, e afirmou que a soberania do país cabe aos afegãos, e não aos militares estrangeiros.

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2012 | 03h02

Hollande chegou às 8h30 locais (23h30 de quinta-feira, no horário de Brasília) ao aeroporto de Cabul, acompanhado do ministro da Defesa, Jean-Yves Le Drian, e do ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius.

Em seguida, a comitiva foi de helicóptero para a Base de Nijrab, na Província de Kapisa, no nordeste do país, onde está a maior parte das tropas francesas.

Hollande foi recebido por generais que organizarão a retirada ao longo dos próximos sete meses. Em discurso, ele justificou aos soldados a decisão de deixar o país após dez anos de operações ao lado das forças internacionais, sob o comando da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan).

"O tempo da soberania afegã chegou", disse o presidente. "Não cabe aos aliados definir o futuro do Afeganistão, mas aos próprios afegãos e só a eles, que tomarão os caminhos que escolherem livremente.".

De acordo com ele, a decisão de retirar até o fim do ano 2 mil soldados combatentes, dos 3,5 mil militares franceses que estão no Afeganistão, "é irreversível".

Ainda de acordo com Hollande, mesmo que a retirada ocorra dois anos antes do previsto, a decisão teria sido encarada com naturalidade pelo presidente dos EUA, Barack Obama. Os dois discutiram o tema na reunião de cúpula da Otan, realizada em Chicago, na semana passada.

Para Hollande, "a ameaça terrorista que ameaçava o território francês, sem ter totalmente desaparecido, foi em parte eliminada", o que abre espaço para a retirada.

Preocupado em convencer Karzai de que a França continuará apoiando seu governo, o presidente confirmou a manutenção das tropas encarregadas da formação dos soldados afegãos, além do pessoal de logística. Programas de saúde pública, de educação e de habitação também serão mantido, "para garantir o futuro ao Afeganistão".

Transferência. O impacto da saída dos 2 mil soldados franceses será maior em duas regiões. Em Surobi, distrito de Cabul, as operações de segurança e de combate já foram transferidas para o Exército afegão no mês passado e eram apenas monitoradas pelos franceses.

Já em Kapisa, a situação é bem mais delicada. Sem jamais ter assumido o controle total sobre os combatentes do Taleban, os soldados franceses transferirão a responsabilidade aos afegãos sob alto risco de instabilidade.

Violência. Conformado com a retirada, o comandante da Força Internacional de Assistência e Segurança (Isaf), o general John Allen, afirmou que não vê risco de instabilidade no Afeganistão. A visita de Hollande teve duração de oito horas, sem incidentes. Às 16h45 locais (7h45 de Brasília), a delegação francesa retornou a Paris.

Ao menos três episódios de violência foram registrados ontem o Afeganistão. Os ataques deixaram três mortos e ao menos nove feridos, em três cidades diferentes. Na Província de Uruzgan, uma mina terrestre explodiu na passagem de um veículo policial por uma estrada. Um policial morreu e outros dois ficaram feridos.

Um ataque similar na Província de Helmand atingiu um ônibus. Dois civis morreram e outros quatro ficaram feridos.

De acordo com o porta-voz do governo provincial. Daud Ahmadi, a bomba foi colocada perto de uma estrada usada por veículos da Otan em uma tentativa aparente de atingir tropas estrangeiras. Em Kandahar, um suicida em uma motocicleta explodiu-se no distrito de Spin Boldak. Um policial e dois civis ficaram feridos. / COM AGÊNCIAS

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