Hollande imita Sarkozy e expulsa ciganos

Dois campos de imigrantes do Leste Europeu são desmantelados na França; governo socialista garante que só pretende evitar o surgimento de favelas

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2012 | 03h06

Três meses depois da posse, o socialista François Hollande retomou a repressão aos acampamentos de ciganos na França - iniciativa que marcou a política anti-imigração de seu antecessor na presidência, o conservador Nicolas Sarkozy. Por decisão do Ministério do Interior, dois campos com cerca de 200 ciganos foram desmantelados ontem em Lille, norte do país. Associações de direitos humanos e de defesa de imigrantes denunciaram a retomada das expulsões.

As duas desocupações confirmam o retorno da política rigorosa contra os acampamentos ciganos. O primeiro foi desmantelado em Hellemmes, na região metropolitana de Lille. Outro foi desmontado em Villeneuve d'Ascq. As ordens de despejo haviam sido emitidas pelo Tribunal de Grande Instância a pedido de moradores.

Enquanto isso, em Lyon, 240 ciganos foram expulsos do país em um voo fretado pelo governo que partiu para a Romênia. Os repatriados aceitaram aderir ao programa que oferece € 300 a adultos e € 100 a crianças em troca do retorno a seu país de origem. A medida, criada por Sarkozy em 2007, foi então duramente criticada pelo Partido Socialista, hoje no poder.

Responsável pela política, o ministro do Interior, Manuel Valls, divulgou um comunicado no qual afirmou que as condições propostas aos imigrantes que não tenham "condições de permanecer" na França serão revistas, mas ressaltou que a iniciativa continuará. O governo de Hollande alega que os acampamentos representam "riscos sanitários", sobretudo pela formação de favelas sem condições mínimas de saneamento. "É uma medida justa e legítima, já que esses acampamentos não têm seu lugar na França", disse Valls.

Entre grupos de defesa dos imigrantes, a preocupação é com o destino dos 20 mil ciganos que vivem no país. Muitos militantes protestam contra a retomada da política de Sarkozy, à época acusado de fascista. "Nós retomamos o ritmo do governo passado", afirmou Malik Samekour, vice-presidente da Liga de Direitos do Homem e membro da associação Romeurope, que defende os direitos da comunidade cigana.

O Movimento Antirracista Europeu publicou nota oficial denunciando a retomada das expulsões. "O governo anterior foi marcado por uma política violenta contra os ciganos", diz o texto. "A sociedade civil europeia esperava que o presidente eleito restabelecesse o respeito, a dignidade e os direitos do homem relativos aos ciganos."

No meio político, a retomada das expulsões causou controvérsia. O grupo Europe Ecologie-Partido Verde, da coalizão de Hollande, protestou, afirmando que a ação "contradiz brutalmente uma das promessas de campanha", a de não expulsar famílias ciganas sem lhes dar alternativas de habitação.

A líder da Frente Nacional, de extrema direita, criticou a iniciativa, afirmando que a expulsão de alguns não adianta. "O desmantelamento de campos de ciganos é necessário", disse a líder do partido, Marine Le Pen. "Mas a solução verdadeira passa pelo domínio de nossas fronteiras."

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