Hollande inicia mandato a toda velocidade

Análise: Gilles Lapouge

É CORRESPONDENTE EM PARIS, O Estado de S.Paulo

17 Maio 2012 | 07h49

Encerrada sua visita a Berlim, onde se reuniu com a chanceler alemã, Angela Merkel, François Hollande muda de continente para ver o presidente Barack Obama, primeiro em Camp David, na reunião do G-8 amanhã e sábado, depois em Chicago, para a cúpula da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan), no domingo e na segunda-feira.

Seu teste inicial será árduo. O ex-presidente Nicolás Sarkozy era um americanófilo apaixonado. Enquanto a França, desde os tempos do general De Gaulle olhava os "ianques" com ar severo, Sarkozy, que adora a cultura do Oeste e Mickey Mouse, lançou-se no pescoço de George W. Bush.

Com o atual presidente americano ele foi menos efusivo, pois Obama é um homem frio (e Sarkozy é muito quente!) e também porque nunca gostou muito do fato de Obama se achar mais ilustre do que ele.

Mas Sarkozy seguiu a política americana. No seu governo, a França, que se havia retirado da Otan na época do general De Gaulle, retornou à aliança atlântica. E ele não hesitou em enviar soldados franceses para combater no Afeganistão.

É neste ponto que tensões podem surgir entre Obama e Hollande. O novo presidente francês decidiu retirar prematuramente os soldados franceses do Afeganistão. Esta decisão é mal vista pelos EUA e pela Otan. Num assunto tão sensível é verdade que Hollande deveria se comprometer com as promessas que seu predecessor fez a Obama, ou seja, não retirar os soldados franceses antes da saída das tropas americanas.

Talvez ele devesse ceder um pouco. Poderia invocar dificuldades técnicas para a saída (dificuldades reais) de modo a prolongar um pouco a presença dos soldados franceses. Mas um outro debate pode ser previsto: Hollande não demonstra nenhum entusiasmo pelo projeto do escudo antimísseis da Otan.

Portanto, a França poderá ser novamente ressentida como a eterna insatisfeita que sempre foi com relação aos EUA desde os tempos do general De Gaulle. E isso é mal para Obama. O americano está em campanha eleitoral e precisa de sucesso no Afeganistão e na questão do "escudo" para seduzir os eleitores.

Entretanto, Obama não deverá se mostrar muito importuno com Hollande. Ele teme que uma brusca tensão entre os dois países seja logo explorada pelos seus inimigos republicanos. Ainda mais porque ele já sente um "desdém" da parte de um outro país, a Rússia, que há três anos ele procura cortejar.

Vladimir Putin anunciou que não participará da cúpula do G-8 em Camp David. Ocorre que Obama transferiu a reunião do G-8 para Camp David exatamente para satisfazer Putin, que não queria ir a Chicago para a cúpula da Otan. Estas amabilidades não serviram para nada. Putin não virá. "É uma pedra no sapato de Obama", opinam especialistas americanos. É preciso que Hollande não se torne uma segunda pedra.

Em compensação, há uma questão sobre a qual a posição de Hollande se harmoniza com a de Obama. A Turquia. Por razões incompreensíveis (cristianismo contra islamismo, sem dúvida!) Sarkozy destruiu as boas relações da França com a Turquia. Hollande deverá reparar esse erro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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