REUTERS/Stephane De Sakutin/Pool
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Hollande recebe Raúl e condena embargo

Presidente francês pede a Obama que vá ‘até o fim’ contra ‘vestígio da Guerra Fria’

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

01 de fevereiro de 2016 | 18h31

Washington precisa derrubar o embargo imposto a Cuba, exortou nesta segunda-feira o presidente da França, François Hollande. O pedido foi feito durante a visita oficial do presidente cubano, Raúl Castro, recebido com honras de Estado no Palácio do Eliseu, em Paris. 

O encontro, inédito em 21 anos, representa um novo passo na estratégia da Europa de normalizar as relações – até mesmo comerciais – com a ilha e estreitar laços com a América Latina. Raúl encontrou-se com Hollande na tarde desta segunda-feira.

Em contraste com a visita realizada na semana passada pelo presidente do Irã, Hassan Rohani, o cubano teve direito a tapete vermelho e revista de tropas.

À noite, a delegação foi recebida para um banquete de Estado, ao qual o iraniano não teve direito – os protocolos presidenciais de França e Irã cancelaram o jantar em razão de divergências sobre o consumo de vinho.

Foi a primeira visita oficial de um presidente da ilha à França desde a Revolução Cubana – Fidel Castro foi recebido em visita privada em 1995. Na reunião desta segunda-feira, Hollande pediu ao presidente dos EUA, Barack Obama, que “vá até o fim” para “apagar” o embargo. “O presidente Obama, que nos fez progredir, deve, e ele mesmo o diz, ir até o fim para permitir que possa pôr fim a este vestígio da Guerra Fria”, disse Hollande, após a assinatura de 12 acordos de parceria econômica com Cuba. 

O líder cubano se mostrou satisfeito: “Cuba aprecia a posição da França em favor do fim do bloqueio econômico”.

Hollande foi o primeiro líder do Ocidente a visitar a ilha após a reaproximação entre EUA e Cuba. Desde então, o presidente socialista multiplica os gestos políticos na direção de Havana. Entre os acordos firmados ontem, está a conversão de € 212 milhões em dívidas cubanas utilizando recursos de um fundo binacional de investimentos em infraestrutura, que será administrado pelo escritório local da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), a ser criado.

A França, que exerce a presidência do Clube de Paris, já havia trabalhado por um acordo de reescalonamento da dívida externa de Cuba com países do Ocidente, que chegava a € 14,7 bilhões, um acerto finalizado em 12 de dezembro.

Reação. Dissidentes e entidades internacionais críticas do governo cubano, no entanto, reclamaram da acolhida reservada a Raúl em Paris. Em artigo publicado pelo jornal Libération, o secretário-geral da ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Christophe Deloire, protestou contra a recepção “ao representante de uma das últimas ditaduras ainda em ação”.

Um grupo de intelectuais cubanos, apoiado pela Associação Europeia Cuba Livre, também protestou, assim como a dissidente Yoani Sánchez. “Na terra natal da ‘Liberdade, Igualdade, Fraternidade’, perder a visita oficial de Raúl Castro e não exigir uma abertura democrática seria uma decepção capital”, alfinetou, em artigo. 

Questionado sobre o tema ontem, Hollande argumentou: “Nós não rejeitamos nenhum assunto, até mesmo os direitos das pessoas”.

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