Hollande tenta enterrar estigma do 'neocolonialismo'

Presidente socialista critica o velho conceito de 'Françáfrica', com base na aliança entre elites locais e a ex-metrópole

Andrei Netto , O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2013 | 02h06

PARIS - No início do mês, quando recebeu no Palácio do Eliseu representantes de 54 países da África, incluindo 25 presidentes e 12 primeiros-ministros, o presidente François Hollande deu um recado: "A África deve dominar plenamente seu destino e, para isso, deve assegurar plenamente sua própria segurança". Mas, para tanto, Paris anunciou um plano para treinar anualmente 20 mil soldados de diferentes países africanos.

O discurso era uma nova tentativa de ruptura com a chamada "Françáfrica": a política estratégica neocolonial francesa na África caracterizada por interesses obscuros mútuos e pela corrupção em larga escala nos anos 50 e 60. Em seus pronunciamentos, Hollande defende um "novo olhar" ao continente.

"Para a França, a África é um continente do futuro", disse Hollande, propondo-se a financiar projetos de desenvolvimento e a emprestar a países da região € 1 bilhão. Em troca, Hollande pediu "transparência e boa governança", conceitos que, por si só, romperiam com a lógica clientelista da "Françáfrica".

O problema, dizem analistas, é que por trás dos discursos de modernização das relações entre França e África, os vícios continuam. No mesmo dia em que reforçou a intenção de romper com as políticas de seus predecessores, Hollande confirmou o envio de tropas francesas à República Centro-Africana, acrescentando um novo capítulo no histórico de intervenções.

"Se nós estamos presentes, não é para proteger um regime, mas para proteger nossos compatriotas no país e nossos interesses e de nenhuma forma para intervir nos assuntos interiores da República Centro Africana", garantiu Hollande. "Esse tempo terminou."

Para Michel Galy, professor Instituto de Relações Internacionais (Ileri), a questão ultrapassa o presidente. "Mesmo que reconheçamos em Hollande a vontade de ruptura com o período precedente, uma grande linha de continuidade permanece."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.