Hollande visita Havana e pede pressa no fim do embargo econômico à ilha

Em uma visita emblemática de um líder europeu a Havana, o presidente da França, François Hollande, pediu ontem o fim do embargo americano a Cuba, ao mesmo tempo em que lançou as bases de uma nova relação diplomática e econômica entre a Europa e a ilha.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2015 | 02h03

Chefiando uma delegação de ministros e empresários, de olho na abertura da economia, o socialista exortou os EUA a acelerarem a distensão, anulando as sanções em vigor desde 1962. Desde 1991, com o fim da União Soviética, a França tem uma posição progressista em relação ao embargo econômico, votando todos os anos pelo seu fim na Assembleia-Geral das Nações Unidas. Ontem, Hollande foi além e, em discurso na Universidade de Havana, disse que é hora de a comunidade internacional confirmar a normalização das relações com o regime castrista.

"A França fará o possível para que a abertura possa ser confirmada, para que as medidas que tanto prejudicam o desenvolvimento de Cuba possam ser enfim anuladas", afirmou. "A França sempre foi favorável ao fim do embargo."

Hollande colocou-se na condição de porta-voz da Europa. "Eu venho como presidente da França, mas também como representante e membro fundador da União Europeia." O francês destacou ainda a proximidade histórica com a América Latina, anunciando a disposição de estreitar relações políticas e econômicas.

"Vínculos seculares unem Cuba e França. Nós compartilhamos os mesmo movimentos de ideias, as mesmas aspirações, as mesmas inspirações filosóficas. Nós lemos os mesmos livros e trocamos experiências constantemente", disse, acrescentando que "a França é, de certa forma, um país latino-americano" - em uma alusão à Guiana Francesa.

Estratégia. Além do gesto simbólico em nome da UE, Hollande também tenta aprofundar os laços econômicos com a ilha dos Castros. Para tanto, uma comitiva de ministros e líderes empresariais acompanha a delegação do Palácio do Eliseu com o objetivo de propor medidas objetivas de integração. Entre as possibilidades, estão o reconhecimento de diplomas de nível superior e o trabalho conjunto de laboratórios farmacêuticos.

O líder francês discursou horas antes da reunião bilateral com Raúl Castro, na noite de ontem, na qual o francês informaria que pretende acelerar o processo de reaproximação diplomática e econômica. Uma das intenções de Paris é que a UE - maior parceiro comercial cubano no mundo - posicione-se para a abertura, antecipando-se à esperada "invasão" de empresas dos EUA com a aproximação entre Barack Obama e Raúl.

"Vivemos um momento histórico, no qual assistimos à evolução das relações entre EUA e Cuba. Pode ser interessante para a UE posicionar-se como aliado estratégico de Havana", afirmou ao Estado o economista Stéphane Straub, especialista em América Latina da Universidade de Toulouse 1.

Segundo Straub, é do interesse dos europeus participar do movimento não apenas pelo mercado cubano, mas também por vantagens competitivas nos EUA. "Num mundo em que empresas buscam locais pouco onerosos para produzir, um país próximo aos EUA como Cuba, onde se pode produzir com baixo custo e exportar com facilidade, pode ser muito interessante."

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