Hollywood estuda forma de abordar os '33 heróis' chilenos

Caso dos mineiros presos por mais de dois meses vira objeto de disputa da indústria do cinema

Tim Arango - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

Todos os 33 mineiros e o presidente chileno, Sebastián Piñera, no hospital de campanha.

 

NOVA YORK - Depois de ter sobrevivido a um acidente de avião com sua equipe de rúgbi nos Andes em 1972, Nando Parrado teve uma vida agradável. Ele se tornou autor e um bem-sucedido produtor de TV no Uruguai. Ethan Hawke interpretou o papel dele num filme. E Parrado ainda comparece à reunião anual com os 15 outros sobreviventes cuja história tortuosa foi retratada no filme Vivos, de 1993. De férias em Miami, ele acompanhou a cobertura do resgate dos mineiros no Chile.

"Se tivéssemos sido recebidos por uma equipe de TV, o agito em torno do nosso caso teria proporções muito maiores", disse ele, revelando certa inveja dos resgatados. "Ninguém nos ajudou. Escapamos daquela situação e fomos a um churrasco." Passaram-se 21 anos até que a história de Parrado fosse contada por Hollywood. Para os mineiros, as especulações em relação aos direitos para a produção de um filme tiveram início enquanto eles ainda estavam sob a terra. O site Movieonline.com propôs vários nomes de diretores considerados adequados, entre eles Ron Howard, Danny Boyle e Kathryn Bigelow. Quem participaria do elenco? Foram sugeridos atores como Javier Bardem, Gael García Bernal e Benício del Toro.

O fato é que a história dos mineiros torna-se agora o objeto de disputas, de polêmicas sobre quem deve ser pago e quem controlará a manipulação da história no âmbito da cultura popular. O episódio chegará a Hollywood, que tentará transformar a vida real em arte - ou, ao menos, num grande sucesso dos cinemas.

As reportagens sugeriam que os homens aprisionados tinham combinado, antes mesmo do resgate, que partilhariam todo o eventual lucro que Hollywood lhes pudesse proporcionar. Mas o dinheiro e a fama têm o hábito de complicar relacionamentos.

"Alguns podem gostar da exposição, enquanto outros, não", disse Parrado. "Trata-se de um grupo grande, e cada indivíduo se comporta de maneira diferente."

"Acho que, para uma pessoa normal, negociar com Hollywood é assustador", disse Will Jimeno, policial de Nova York soterrado durante nos ataques do 11 de Setembro, cuja história foi contada no filme de Oliver Stone, World Trade Center, em 2006. Jimeno e outro policial, o sargento John McLoughlin, receberam por suas histórias cerca de US$ 200 mil cada - uma quantia modesta para os padrões de Hollywood. Ele disse que preservar a fidelidade histórica e honrar a memória dos colegas mortos foram seus motivos para participar do filme.

"Hollywood nos procurou", disse Jimeno, que afirmou ter chorado quando viu os mineiros serem resgatados. Ele aconselhou os mineiros a confiar nos próprios instintos no momento de escolher um parceiro dentre os muitos que virão atrás deles para contar sua saga. A respeito de Hollywood, ele disse: "Vão ganhar o dinheiro deles independentemente de todo o resto. Trata-se de um negócio".

"Não há problema em fazer um filme sobre Mark Zuckerberg, dono de uma fortuna de US$ 6 bilhões, e não pagar direitos a ele", disse Michael Shamberg, um dos produtores de World Trade Center. "Mas não se pode recriar a história de 33 mineiros sem tentar ajudá-los."

Shamberg enviou um e-mail a um cineasta chileno dias antes do resgate dos mineiros, na tentativa de associar um nome latino a um projeto que agora existe apenas na sua imaginação. "Eles são o orgulho nacional do Chile. Se não os tratarmos bem, certamente teremos um país inteiro contra nós." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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