EFE/SEDAT SUNA
EFE/SEDAT SUNA

Homem acusado de golpe é ligado a escolas nos EUA

Fethullah Gulen, que vive na Pensilvânia, teria inspirado uma rede de 160 instituições de ensino que recebem verba do governo americano

Valerie Strauss, THE WASHINGTON POST

19 Julho 2016 | 05h00

O homem acusado pelos líderes turcos de estar por trás da tentativa de golpe lançada por oficiais do Exército é um intelectual islâmico chamado Fethullah Gulen. Ele vive autoexilado na Pensilvânia e inspirou uma rede que incluiria mais de 160 escolas que recebem incentivos do governo americano, mas são administradas independentemente.

O presidente turco, Tayyip Recep Erdogan, diz que o fracassado golpe da semana passada foi obra de militares seguidores de Gulen, um antigo aliado de Erdogan que se tornou crítico do cada vez mais autoritário governo do presidente.

O movimento Gulen negou envolvimento no golpe, mas o secretário americano de Estado, John Kerry, disse que os EUA apoiariam investigações para determinar quem teria instigado a tentativa golpista e de onde vêm seus apoiadores. Kerry disse que estava se adiantando às perguntas que serão feitas sobre Gulen.

Embora Gulen viva num condomínio fechado na Pensilvânia, ele continua tendo influência na Turquia por meio de seguidores no Judiciário e na polícia. A imprensa turca informou que 2.745 juízes foram afastados por suspeita de ligação com o movimento Gulen.

Seguidores do intelectual também abriram muitas escolas privadas em torno do mundo, incluindo as mais de 160 em vários Estados dos EUA.

Essas escolas, financiadas pelo governo, são extraoficialmente conhecidas como “escolas Gulen”. São operadas geralmente por turcos pertencentes ou ligados ao movimento Gulen. Entre as principais estão as escolas do grupo Harmony, no Texas, que receberam milhões do governo e estão entre as melhores de suas comunidades (há uma Harmony também em Washington).

Elas negam qualquer relação com Gulen - adepto de uma forma moderada de islamismo -, e o movimento gulenista também nega qualquer relação com elas. Mas Sharon Higgins, que estuda o movimento e tem escrito sobre ele, diz que é comum funcionários dessas escolas negarem conexões. Ela afirma haver mais de 160 escolas inspiradas pelo gulenismo no país, o que faz delas uma das maiores redes das chamadas “charter schools”.

Esse tipo de escola tem levantado controvérsias ao longo dos anos, com acusações de que seus operadores turcos favorecem contratos com empresas ligadas a turcos. São também acusadas de contratar muitos professores turcos que estão nos EUA com vistos de estrangeiro, parte dos quais promoveriam a cultura turca por meio de intercâmbio cultural. Segundo críticos, essas escolas são ligadas ao movimento Gulen e sua recusa em admitir isso revela falta de transparência.

Em 2010, o repórter do USA Today Greg Toppo, num artigo sobre o movimento Gulen, escreveu: “...Documentos mostram que virtualmente todas essas escolas foram abertas ou são dirigidas com a ajuda de grupos de ‘diálogo’ inspirados por Gulen”. Em 2011, o New York Times falou sobre as escolas Harmony do Texas: “...A principal queixa é que elas têm centenas de professores e funcionários importados da Turquia... Surgem perguntas sobre se as escolas estão usando dinheiro do contribuinte para beneficiar o movimento Gulen, favorecendo negócios com seguidores do grupo”.

Em 2013, um grupo de turcos - que já administrava a Cheseapeake Science Point Public Charter School no Condado de Anne Arundel, Maryland - tentou abrir uma escola charter no Condado de Loudoun, Virgínia. A autorização foi negada após várias pessoas testemunharem numa audiência sobre o pedido e surgirem dúvidas sobre currículos e pontos administrativos.

Uma das testemunhas disse que ela e o marido haviam trabalhado numa escola inspirada em Gulen em Ohio. Ela disse que o marido, um turco, estava envolvido com o movimento e professores turcos na escola tinham de entregar 40% do salário a um fundo secreto usado pelo movimento.

Como Gulen chegou à Pensilvânia? Primeiro ele pediu um visto especial para entrar nos Estados Unidos, dez anos atrás, mas o Departamento de Segurança Interna negou.

Um processo questionando a decisão deu entrada em 2007 no Tribunal Federal Distrital de Filadélfia, alegando que Gulen era “chefe do movimento Gulen” e figura destacada no setor educacional que “havia supervisionado” a criação de uma rede de escolas nos EUA e outros países, segundo informou o jornal Philadelphia Inquirer em 2011. Em 2008 ele recebeu um green card. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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