Melissa Sue Gerrits/Getty Images via NYT
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Homem negro assassinado por supremacistas brancos em 1898 finalmente tem seu funeral

Grupo matou Joshua Halsey e cerca de 250 outras pessoas no mesmo dia em Wilmington, cidade da Carolina do Norte; no último fim de semana, líderes comunitários e familiares o homenagearam

Maris Cramer, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 05h00

Joshua Halsey, um trabalhador negro e pai de quatro meninas, estava na cama dormindo em 10 de novembro de 1898, quando uma de suas filhas o acordou.

Ele era surdo e não tinha ouvido os tiros disparados por um grupo de supremacistas brancos que avançava pelas ruas de Wilmington, na Carolina do Norte, uma cidade predominantemente negra onde os residentes possuíam empresas e ocupavam cargos de poder.

A multidão pretendia derrubar o governo municipal, composto por líderes negros e seus aliados brancos.

Halsey, um homem de 46 anos, querido na comunidade, cuja família viveu na cidade por 100 anos, foi um dos alvos, de acordo com relatos históricos.

Ele saiu correndo pela porta dos fundos, mas os supremacistas o alcançaram cerca de um quarteirão de sua casa, na rua Bladen, e atiraram nele 14 vezes. Ele foi enterrado às pressas em uma sepultura sem identificação em um terreno de parentes  no cemitério de Pine Forest. A maior parte de sua família fugiu para Nova Jersey, parte da diáspora de residentes negros, artesãos e profissionais que deixaram a cidade após o que ficou conhecido como o Massacre de Wilmington e o Golpe de Estado de 1898.

No sábado, 6, quase 123 anos após sua morte, Halsey recebeu um funeral que contou com a presença de líderes da cidade, centenas de moradores e seus parentes vivos, que vieram de diversas partes do país. Alguns deles disseram que só descobriram nos últimos anos que eram seus descendentes.

Uma carruagem puxada por cavalos carregava um caixão com uma jarra com terra retirada do local onde ele morreu. Uma lápide com o nome de Halsey e sua esposa, Sallie, e de suas quatro filhas foi colocada em seu túmulo.

“Foi inacreditável”, disse Gwendolyn Alexis, de 65 anos, bisneta de Halsey. “Foi tão poderoso.”

Halsey estava entre as 60 a 250 pessoas mortas naquele dia. Os supremacistas brancos na época admitiram ter matado apenas ele e outras sete pessoas, disse John Jeremiah Sullivan, redator da The New York Times Magazine e fundador do Third Person Project, um grupo de pesquisa documental com sede em Wilmington.

Sullivan e outros membros do grupo encontraram o túmulo de Halsey em outubro, depois de vasculhar o cemitério em busca de seus restos mortais. Mapas históricos do cemitério, onde muitos negros americanos proeminentes estão enterrados, eram desorganizados e caóticos.

Os membros do Third Person Project tiveram que analisar as certidões de óbito de parentes de Halsey e outros registros públicos, além da pesquisa de historiadores anteriores para encontrar a sepultura. Sullivan disse que o grupo foi capaz de confirmar qual tumba pertencia a Halsey usando radar de penetração no solo do escritório de envolvimento comunitário da Universidade da Carolina do Norte em Wilmington, uma cidade portuária com cerca de 120 mil habitantes.

Bisneto de Halsey, Hesketh Brown Jr, de 58 anos, disse que espera que o funeral faça parte de um esforço mais amplo da cidade para compreender e confrontar sua própria história.“Essa cidade precisa ser fechada”, disse ele. “E a verdade ajuda a encerrar se a aceitarmos.”

Em 2006, o Estado divulgou um relatório de uma comissão criada para estabelecer um registro histórico do massacre.

A Wilmington Race Riot Commission determinou que o motim foi um golpe planejado e organizado por supremacistas brancos, que queriam expulsar representantes eleitos negros e seus aliados nos partidos Republicano e Populista do governo estadual. Na época, o Partido Democrata era composto quase inteiramente de eleitores brancos e a supremacia branca era uma plataforma significativa dos líderes políticos do partido.

Os líderes democratas usaram discursos e propagandas racistas, enquanto se alimentavam de temores infundados de que os homens negros representavam uma ameaça às mulheres brancas para influenciar os eleitores brancos durante as eleições estaduais daquele ano, de acordo com as conclusões da comissão.

Muitos negros também foram afastados das urnas por grupos paramilitares contratados pelo Partido Democrata.

Funcionou. Em 8 de novembro, os democratas venceram a eleição, mas, em Wilmington, o prefeito republicano permaneceu no poder. O mesmo aconteceu com o conselho de vereadores, que incluía homens negros.

Em 10 de novembro, uma multidão de homens brancos armados marchou na cidade da Carolina do Norte e forçou a renúncia do prefeito e do conselho de vereadores.

O grupo seguiu para o escritório do The Daily Record, o jornal afro-americano local, e o incendiou.

Eles então invadiram a cidade, atirando nos moradores negros, incluindo Joshua Halsey, e forçando os outros a fugir para o Cemitério de Pine Forest, onde se esconderam, congelando nos pântanos perto do rio Cape Fear. Muitos deles provavelmente morreram de exposição ao frio, conclui Sullivan.

Alexis, que leciona na California State University, em Fullerton, e no John Jay College of Criminal Justice, disse que pensou nessas pessoas durante o funeral, enquanto tremia debaixo de um casaco e um cobertor.

“Me senti ali, sentindo o que eles devem ter sentido um pouquinho”, disse ela. “Eles não tinham nada. Eles estavam apenas correndo para salvar suas vidas.”

Os eventos daquele dia foram distorcidos por notícias de jornais da época que retratavam os residentes negros como instigadores do porte de armas. Como o Massacre da Corrida de Tulsa em Oklahoma, o massacre de Wilmington foi frequentemente escondido nos livros de história.

Linda Thompson, diretora de Diversidade e Equidade do condado de New Hanover, disse que o funeral de Halsey foi um dos muitos eventos que o governo local ajudou a organizar para criar mais consciência sobre o golpe de 1898. “Há tantas pessoas em nossa comunidade que não tinham ideia”, disse ela. “Eles certamente estão tentando, querendo saber mais.” /TRADUÇÃO DE LUIZA LANZA

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