Homenagem a herói morto traz de volta espectro da violência afegã

O espectro da violência política pairou ontem sobre as ruas de Cabul, com o disparo de tiros para o alto por partidários de um dos candidatos presidenciais durante caravanas de carros e motos que lembraram a morte de Ahmad Shah Massoud, herói nacional assassinado por militantes da Al-Qaeda dois dias antes dos atentados do 11 de Setembro, em 2001.

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2014 | 02h01

Os disparos mataram um jovem de 21 anos e deixaram 5 feridos. Integrantes do partido de Massoud apoiaram a candidatura de Abdullah Abdullah, que liderou o primeiro turno da disputa, mas perdeu o segundo, em 14 de junho.

Acusações de fraude levaram à recontagem dos votos sob supervisão da ONU, mas Abdullah afirmou anteontem que não aceitará o resultado, que deve favorecer seu adversário, Ashraf Ghani. Segundo ele, os critérios de revisão não permitiram a identificação de irregularidades que teriam favorecido Ghani. Sem um acordo entre ambos que leve à formação de um governo de unidade, existe o risco de fragmentação política e divisão do país em áreas de influência dos dois grupos rivais.

"Ghani deve abrir espaço na administração para Abdullah. Do contrário, os aliados de Abdullah podem ir para as montanhas e criar uma resistência armada ao governo", disse Yazdan Ali, estudante de direito e dono de uma loja de construção em Cabul, ecoando o temor de parte da população.

A principal base de Abdullah é o norte do Afeganistão, de onde Massoud liderou guerrilheiros que combateram os invasores soviéticos e o Taleban. Ambos eram aliados políticos e amigos. Segundo afegãos que acompanharam as homenagens a Massoud em anos recentes, as manifestações de ontem foram mais agressivas e pontuadas por um maior número de armas. Apesar de a maioria dos participantes do ato de ontem estar desarmada, a reportagem do Estado viu vários homens em caminhonetes carregando e disparando fuzis.

Em agosto, integrantes do partido de Massoud, o Jamiat-i Islamiya, ameaçaram criar uma oposição armada a um eventual governo de Ghani, com o suposto apoio de parcela das forças afegãs. Abdullah também disse que poderia formar um governo paralelo, o que acentuaria a instabilidade política.

A permanência de tropas internacionais no país depois de 2014 depende da definição do nome do novo presidente, que terá a atribuição de assinar um tratado de segurança bilateral garantindo imunidade aos soldados estrangeiros. Em evento que homenageou Massoud, o presidente afegão, Hamid Karzai, afirmou que o nome de seu sucessor deve ser escolhido com urgência para o "salvamento do país" - ele se recusou a firmar o acordo de segurança.

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