WILSON TOSTA/ESTADÃO
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Homicídios caíram, mas tráfico de drogas e extorsões continuam

Culto ao traficante Pablo Escobar convive com criminalidade discreta e menos letal do que nos anos 90

Wilson Tosta ENVIADO ESPECIAL A MEDELLÍN, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2015 | 05h00

Pablo Escobar Gaviria ainda é um espectro na capital do Departamento de Antioquia, de onde comandou o tráfico de cocaína para os EUA. Seu rosto decora camisetas vendidas em mercados populares. Seu nome é citado em bairros pobres como o de um benfeitor que deu casas aos humildes. 

Seu irmão, Roberto Escobar Gaviria, ganha dinheiro levando turistas em tour por marcos de sua história. Crianças, influenciadas por um seriado de TV, disputam seu “papel” nas brincadeiras. Medellín, porém, comemora o menor índice de homicídios de sua história. Em 1991, no auge doa violência, eram 380 por 100 mil. Foram 27 por 100 mil, em 2014. Espera-se que cheguem a 19, em 2015. Qualquer indicador acima de um dígito é considerado violência endêmica, mas a queda é notável.

“São os pactos de fuzil”, diz o sociólogo Ivan Darío Ramírez, diretor da ONG Corporación Mandala. Ele se refere a supostos acordos entre criminosos que estariam por trás da “paz tensa” da cidade. “A criminalidade converte qualquer coisa em negócio rentável. A racionalidade econômica explica que o interesse inicial já não seja disputar violentamente os territórios.”

A prefeitura de Medellín atribui a queda nas mortes à ação policial, mas também a projetos sociais e culturais voltados para os jovens. O auge dos assassinatos foi no início da década de 90, mas a queda não foi uniforme. 

Depois da morte de Escobar, em 1993, a chefia do crime ficou com Diego Bejarano, o “Don Berna”. Ele comandava o Bloco Cacique Nutibara, grupo paramilitar que tomou a Comuna 13, em 2003. Ali atuavam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), o Exército de Libertação Nacional e os Comandos Armados do Povo (CAP). 

Ao lado dos paramilitares, agiram polícia e militares. Helicópteros metralharam casas. Agora, por iniciativa da prefeitura, são feitas escavações onde foram enterrados os corpos de vítimas da ação. Don Berna foi preso e extraditado para os EUA, em 2008. Isso abriu espaço para nova disputa sangrenta entre as quadrilhas, chefiadas por Maximiliano Bonilla Orozco, vulgo Valenciano, e Eric Vargas, apelidado Sebastián. Ambos estão presos.

Hoje, não há um único grande chefe do crime em Medellín. As quadrilhas agem nas comunas, mas são mais discretas e respeitam fronteiras. Têm vínculos com as “bacrim” (bandas criminales), como são chamados os Rastrojos e os Urabenhos, grandes quadrilhas nacionais. Dominam seus territórios e evitam disputas violentas. Há dinheiro para todos, que vem de narcotráfico, assaltos, extorsões, venda de produtos da cesta básica, agiotagem e prostituição infantil.

“Os homicídios em Medellín caíram por uma combinação de três fatores”, diz Ramírez. “Primeiro, o pacto entre os atores armados da criminalidade. Segundo, em razão de algumas políticas sociais. Por fim, as práticas de organizações sociais e comunas, por meio de cultura e esportes, que se tornaram alternativa de vida.”

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