Hong Kong é maior desafio desde 1989

Hong Kong é maior desafio desde 1989

China terá de enfrentar protestos na ex-colônia britânica, os mais significativos desde Tiananmen, sem usar violência ou fazer concessões

ANGELA PEREZ, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2014 | 02h03

Os protestos pró-democracia em Hong Kong, um dos principais centros financeiros da Ásia, são vistos como o maior desafio à autoridade de Pequim desde as manifestações de 1989 na Praça da Paz Celestial (Tiananmen). Integram os protestos desde jovens estudantes a aposentados, que há dias vêm bloqueando os principais cruzamentos da área central do território e acampando diante da sede do governo local.

O principal motivo das manifestações são as mudanças propostas pela China que limitariam o número de candidatos para a eleição de 2017 do chefe executivo de Hong Kong - que também seriam pré-selecionados por Pequim. Nos últimos anos, os moradores do território, devolvido à China em 1997 depois de 156 anos como colônia britânica, vêm se preocupando cada vez mais com as tentativas de Pequim de reduzir as liberdades do modelo "um país, dois sistemas", pilar da negociação da devolução de Hong Kong.

Os protestos, que continuavam ontem em Hong Kong, destacaram os ataques de Pequim à liberdade de expressão, assim como a crescente influência das autoridades chinesas no cotidiano dos 7 milhões de moradores do rico território. Os manifestantes exigem a renúncia do atual chefe executivo, Leung Chun-ying, que consideram um fantoche da China, além de poder escolher seus próprios líderes, sem a interferência de Pequim. Ontem, Leung prometeu usar de todos os meios para pôr ordem no território.

Por dias consecutivos, as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e golpes de cassetete para dispersar os protestos, mas os manifestantes mostraram-se irredutíveis, usando de todos os meios possíveis para se proteger dos ataques, entre eles guarda-chuvas, que acabaram se tornando o principal símbolo dos protestos.

Segundo Carina Lai, diretora do centro de estudos de Hong Kong Civil Exchange, a repressão aos estudantes fez com que mais pessoas aderissem aos protestos. "Mas a maioria são pessoas em seus 20 anos, jovens demais para lembrar algo sobre a soberania britânica. Os jovens desenvolveram o próprio senso de identidade de Hong Kong e os próprios valores de cidadania, que são diferentes dos que foram sujeitos à colonização ou dos cidadãos do continente sob o governo do Partido Comunista", disse Carina.

As manifestações são caracterizadas pela ordem. Apesar de bloquearem as vias, os manifestantes penduram cartazes pedindo desculpas pelos transtornos. Voluntários recolhem garrafas de água vazias, papéis e outros tipos de lixo. As pessoas que moram perto das áreas de protestos se oferecem para recarregar os celulares dos manifestantes. Apesar de muitos residentes não terem aderido aos protestos, uma recente pesquisa indicou que a maioria da população diz que não conseguiria viver sob as regras da China.

Pequim agiu rapidamente para barrar na internet informações sobre os protestos, e chegou até a bloquear o aplicativo Instagram. "As autoridades chinesas não querem ver os protestos se espalhando para o continente, pois temem que tenham um efeito dominó", disse o analista político Zhang Lifan. Hong Kong não é a única região que deseja mais autonomia de Pequim, que enfrenta movimentos separatistas no Tibete e em Xinjiang.

"É complicado para a China permitir alguma mudança política. Para Pequim é impensável abrir um precedente, pois outros tentariam fazer o mesmo. Mas não creio que a China tentará conter os protestos como fez em Tiananmen", disse Victor Cha, diretor do Departamento de Estudos Asiáticos da Universidade Georgetown.

Para Carina Lai, Pequim vê os protestos como uma ameaça à sua segurança nacional e buscará não demonstrar fraqueza. "Pequim deixará o problema para o governo que Hong Kong, que provavelmente esperará os manifestantes se cansarem de bloquear o trânsito e os pressionará a voltar para casa."

"Os protestos devem destacar o deficiente sistema político de Hong Kong e influenciar na escolha dos candidatos que Pequim selecionará para as eleições de 2017. Dessa escolha, pode sair alguém mais palatável para Hong Kong", disse Carina.

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