AP Photo/Jon Chol Jin
AP Photo/Jon Chol Jin

Hora de adotar a diplomacia e negociar com a Coreia do Norte 

Presidente americano ignora pedidos de moderação, eleva o tom contra regime de Pyongyang e deixa aliados asiáticos preocupados

The Economist*, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2017 | 05h00

A agência de notícias da Coreia do Norte, KCNA, sempre empenhada em propagandear os feitos do regime de Kim Jong-un, não se destaca pela preocupação com as nuances de sentido. Na semana passada, seus fabulistas trabalharam dobrado, disparando uma tirada após a outra contra as sanções da ONU. Os textos ameaçavam os EUA com as “armas nucleares da Justiça”. E advertiam: “Os americanos gostam de se iludir com a ideia de que seu país é um inexpugnável reino celestial”.

Os presidentes americanos sempre tenderam a ignorar esse tipo de afirmação bombástica. Donald Trump, não. Em declaração que pegou de surpresa a própria Casa Branca, Trump condenou as ameaças e disse que novas provocações seriam revidadas “com fogo e fúria como o mundo nunca viu”. 

Até os hiperbólicos borra-papéis da KCNA acharam a afirmação um pouco forte. Acusaram os EUA de “histeria bélica” e criticaram Trump. Horas depois, o Exército norte-coreano anunciou estar “examinando” um plano de lançamento de mísseis contra Guam, ilha do Pacífico onde há uma importante base militar americana.

É grande o nervosismo entre os vizinhos da Coreia do Norte. O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, quer a reformulação “completa” das Forças Armadas do país. O ministro da Defesa do Japão divulgou documento de 563 páginas para dizer que a ameaça atingiu “novo estágio”. Um dia depois do destampatório de Trump, a China pediu calma.

As sanções que provocaram essa troca de fogo retórico foram impostas graças a um raro momento de cooperação entre China, EUA e Rússia. O Conselho de Segurança da ONU aprovou a medida por unanimidade, uma semana após a Coreia do Norte realizar seu segundo teste com um míssil balístico intercontinental, que em breve pode permitir a Kim ordenar ataques nucleares a cidades americanas.

As novas restrições proíbem que outras nações comprem da Coreia do Norte carvão, minério de ferro, chumbo e frutos do mar (principais produtos do país). Segundo estimativas, isso representará perda de 1 US$ bilhão por ano para Pyongyang, um terço das exportações da Coreia do Norte. As sanções também interditam a contratação de profissionais norte-coreanos por outros países, já que a maior parte da remuneração desses trabalhadores é embolsada pelo regime de Kim.

A questão é que a família Kim não cedeu a pressões em outras ocasiões em que o país foi alvo de sanções. Esta foi a sexta rodada de endurecimento desde que a ONU adotou as primeiras restrições, em 2006, depois de Kim Jong-il, pai de Kim, realizar um teste nuclear. De lá para cá, foram realizados outros quatro.

O regime consegue contornar as sanções, utilizando recursos ilícitos mantidos na China para financiar joint ventures, diz John Park, professor da Kennedy School of Government, da Universidade Harvard. Cada vez que novas restrições são impostas, o governo norte-coreano aumenta o valor das comissões que oferece para a execução dessas transações arriscadas, atraindo intermediários ainda mais versados em burlar as sanções, acrescenta Park. A própria aplicação das sanções é problemática: dos 193 países que fazem parte da ONU, apenas 77 informaram ter implementado a última rodada de restrições, em novembro.

A China, que é responsável por 90% das transações externas da Coreia do Norte, comprometeu-se a aplicar as novas restrições. O problema é que elas não incluem a medida que mais causaria dificuldades para Kim: a limitação da importação de petróleo. Assim, é pouco provável que o autocrata abra mão de suas armas. Por outro lado, analistas esperam que as sanções tornem a vida da Coreia do Norte suficientemente penosa para fazer com que Kim sente para negociar.

Segundo documento do Brookings Institution, as sanções só terão efeito se forem parte de uma “estratégia nítida e coesa”. Mas alguns observadores acusam Trump de emitir sinais contraditórios. Uma semana antes de Trump fazer sua declaração incendiária, o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, enviara mensagem apaziguadora para Pyongyang, dizendo-se aberto ao diálogo. “Não somos seus inimigos, não representamos uma ameaça a seu país.” 

Mark Fitzpatrick, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, diz que a resposta a uma ameaça nuclear exige “cautela e coordenação”, duas coisas que não estão entre as “qualidades mais marcantes de Trump”.

A retórica bombástica de Trump (muito semelhante à do próprio Kim) presta-se apenas a disseminar o nervosismo entre os aliados dos EUA, em nada contribuindo para persuadir o líder norte-coreano a tirar o pé do acelerador dos testes de mísseis. 

“As palavras do presidente americano dão a entender que os EUA estão dispostos a reagir não apenas a uma ação hostil, como um ataque a Seul, mas também às ameaças verbais da Coreia do Norte”, diz Evans Revere, ex-funcionário do Departamento de Estado que participou das negociações. “Se formos reagir com armas nucleares toda vez que os norte-coreanos profiram despropósitos, vai ser um deus nos acuda de bombas atômicas cruzando os ares”, diz ele.

Com as sanções, os EUA deveriam estar chamando os norte-coreanos para o diálogo, ainda que o objetivo da desnuclearização tenha de ser relegado a um futuro remoto. Na campanha, Trump disse estar disposto a convidar Kim para comer um hambúrguer e bater um papo. Fitzpatrick diz que “está na hora de comer esse hambúrguer”.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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