Hora de baixar expectativas e apertar o cinto

Se os acontecimentos dos últimos dias provam alguma coisa, é que não se pode acreditar em uma palavra do que John McCain ou Barack Obama disseram que farão caso sejam eleitos para a presidência. Colocado de maneira simples, a base de tudo que foi proposto pelos candidatos - a de que a economia é fundamentalmente sólida - não é mais funcional. Os candidatos sabem que a economia precisa de ajuda. Obama, em especial, já deixou claro acreditar que o povo americano está sofrendo e necessita de assistência do governo. McCain demonstrou menor disposição para fazer afirmações desse tipo, para não transmitir uma imagem ruim das medidas do presidente George W. Bush, cujo partido ele representa. Ainda assim, é muito improvável que algum dos dois tenha imaginado a magnitude dos problemas econômicos que estão se tornando mais óbvios a cada hora que passa. Agora, autoridades federais estão desenvolvendo uma entidade semelhante à Resolution Trust Corporation (RTC) para comprar as dívidas podres e tirá-las do balanço patrimonial dos bancos. Foi assim que a RTC limpou a bagunça de empréstimos e poupanças no início da década de 90 - ao custo de aproximadamente US$ 125 bilhões. Os problemas de hoje custarão muito mais. Isso significa que não podemos arcar com o custo dos planos tributários e orçamentários de nenhum dos candidatos. O dinheiro que Obama gostaria de gastar com os pobres terá de ser usado para limpar a bagunça financeira. Da mesma forma, os cortes de impostos que McCain gostaria de distribuir estão fora de questão. O governo federal vai precisar de nova renda, e rápido. Não podemos seguir reduzindo os impostos como se o déficit orçamentário não importasse. O problema fundamental da economia americana é a dívida excessiva. Para consertar isso, todos terão de apertar os cintos - até mesmo o governo federal, que precisará arrumar a situação fiscal em casa para poder ajudar na recuperação do setor financeiro. Os eleitores devem insistir para que McCain e Obama joguem fora seus planos orçamentários e de reforma fiscal e em lugar disso ofereçam algo que reflita as realidades econômicas atuais. Esses novos planos têm de ser mais do que vagas generalidades e precisam comprometer o próximo presidente com o cumprimento de um plano de ação que envolva verdadeiros cortes de gastos e aumentos de impostos reais. É claro, a idéia de um candidato advertir aos eleitores que sofrerão caso ele seja eleito vai contra todos os instintos políticos. Mas não é, por obrigação, politicamente fatal. Em 1992, Bill Clinton expôs uma lista bastante detalhada de cortes de gastos e aumentos de impostos e ainda assim foi eleito. O truque é fazer com que tanto Obama quanto McCain apresentem pacotes de reestruturação orçamentária para que um deles não seja injustamente penalizado por sua honestidade. As pessoas merecem saber se o próximo presidente acha que precisamos simplesmente aumentar a cobrança de impostos sobre os ricos ou simplesmente eliminar certos impostos cuja arrecadação tem destino específico no orçamento para resolver nossos problemas fiscais. Isso vai dizer aos eleitores se o próximo presidente é uma pessoa séria ou intelectualmente desonesta quanto à natureza do problema fiscal da nação. A época dos almoços grátis já passou. Precisamos fazer com que McCain e Obama apresentem planos econômicos. As pessoas merecem saber o que, afinal, vai acontecer em janeiro, e o nosso próximo presidente deve saber se os eleitores apóiam sua visão. Com um mandado eleitoral, torna-se possível agir rápido no Congresso. E, no momento, nós precisamos agir de maneira rápida e decisiva se pretendemos endireitar a economia. * Bruce Bartlett foi vice-secretário assistente para política econômica do Tesouro americano de 1988 até 1993. Antes disso, foi um dos principais analistas de medidas públicas do Gabinete de Desenvolvimento de Medidas da Casa Branca e trabalhou como economista no Capitólio. Escreveu este artigo para ?The Washington Post?

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