Horda de mercenários africanos é garantia de Muamar Kadafi

Testemunhas dizem que ditador conta com estrangeiros para aplacar revolta e se manter no poder

O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 01h00

LONDRES - O líder líbio, Muamar Kadafi, deparando-se com a vacilante lealdade de suas Forças Armadas, parece ter recorrido a mercenários de outras partes da África para promover sua sangrenta repressão. Testemunhas e grupos de defesa dos direitos humanos apresentaram à Reuters e a outros veículos de comunicação relatos de combatentes estrangeiros trazidos de outras regiões da África à Líbia - possivelmente veteranos de guerras e movimentos de insurgência em países vizinhos.

 

Veja também:

especialLinha do Tempo: 40 anos de ditadura na Líbia

documento Arquivo: Kadafi nas páginas do Estado

especialInfográfico:  A revolta que abalou o Oriente Médio

blog Radar Global: Os mil e um nomes de Kadafi

lista Análise: Hegemonia de Kadafi depende de Exército fraco

 

Um advogado de Benghazi disse na quarta-feira que um comitê de segurança formado por civis da cidade deteve 36 mercenários do Chade, do Níger e do Sudão, contratados pela guarda pretoriana de Kadafi. No Egito, um estudante líbio de 21 anos chamado Saddam disse ter visto combatentes de fala francesa, do norte e do oeste da África, atirando contra manifestantes antes de ele deixar o país.

 

 

Mas a Líbia tem também sua própria população africana negra, bem como milhares de refugiados africanos que esperam fazer a travessia para a Europa. É difícil identificar a nacionalidade dos combatentes. Ainda assim, o chefe do grupo de trabalho do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos dedicado ao tema dos mercenários disse que as evidências da presença de combatentes estrangeiros estavam se tornando cada vez mais convincentes.

 

 

"Talvez o Exército não esteja disposto a disparar contra seus compatriotas, e assim recorrer a mercenários faria sentido para Kadafi", disse José Luis Gomez del Prado. Citando relatórios de exilados líbios, a Federação Internacional dos Direitos Humanos (IFHR) disse acreditar que Kadafi esteja recorrendo a 6 mil combatentes para se manter no poder, dos quais 3 mil estariam em Trípoli. A IFHR disse que os combatentes seriam provenientes de Chade, Mali, Nigéria e Zimbábue, além de liberianos que teriam combatido ao lado de Charles Taylor, o ex-presidente julgado por crimes de guerra no país vizinho, Serra Leoa. O governo do Sudão disse que rebeldes de Darfur, há muito tempo sustentados por Kadafi, também estariam envolvidos, acusação negada pelos rebeldes.

 

Esta pode não ser a primeira vez que Kadafi recorre à ajuda de estrangeiros. Durante sua luta contra insurgentes islâmicos na década de 90, houve rumores de que ele teria contratado pilotos mercenários sérvios depois que oficiais líbios se recusaram a bombardear civis. Alguns pilotos líbios parecem ter novamente se recusado a obedecer as ordens do ditador.

 

Del Prado, da ONU, disse ter ouvido relatos da presença de mercenários da Europa Oriental na repressão atual, mas a maior parte das provas aponta para combatentes de outras regiões da África. Chade, República Democrática do Congo (ex-Zaire), Libéria e outros países viveram sangrentas guerras civis que deixaram como saldo gerações inteiras traumatizadas e com frequência armadas.

 

Kadafi estabeleceu elos empresariais e diplomáticos com muitos países africanos nos últimos anos. A maioria dos relatos na Líbia sugere que os combatentes estrangeiros foram trazidos ao país com muita antecedência.

 

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL - REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.