Hóspede excêntrico convive com cantoria em espanhol

Há sete meses, Assange e assessores que parecem personagens de 'Matrix' são parte de uma típica repartição sul-americana

LONDRES, O Estado de S.Paulo

03 de fevereiro de 2013 | 02h06

Julian Assange pode ser considerado um foragido pela polícia, mas, na prática, já vive confinado, ainda que em condições bem melhores que numa prisão, com visitas frequentes e em uma das regiões mais valorizadas de Londres. Dentro e fora da embaixada do Equador, o esquema de segurança em relação ao ativista beira a paranoia, tanto pela polícia quanto pelos seguranças do escritório equatoriano.

Numa das ruas de comércio mais movimentadas da cidade e ao lado da loja Harrods, um caminhão da polícia permanece estacionado a poucos metros da porta de Assange, 24 horas por dia. No teto do veículo, uma antena capta tudo o que se transmite de dentro da embaixada. O Estado contou pelo menos cinco policiais nas portas da embaixada, um deles a dois passos da entrada do local.

A Justiça já avisou: basta Assange colocar o pé fora e será preso, antes mesmo de chegar à rua. "Essa é sua fronteira", apontou um segurança para a porta da embaixada.

Uma vez dentro da missão equatoriana, que tem suas cortinas fechadas, a segurança e o controle não deixam nada a desejar para a polícia londrina. O passaporte original dos visitantes é exigido e mantido com um segurança privado. Celulares também não são autorizados a entrar e, apagados, são entregues aos seguranças.

Assange vive, na prática, encarcerado e sem data para sair. A embaixada é modesta, com decoração austera e divide um andar com a representação da Colômbia. Uma das poucas salas foi transformada em seu quarto. Uma cama foi trazida, mas a reportagem recebeu instruções claras de que não poderia ter acesso à habitação.

Assange e seu entorno cozinham, mas as possibilidades são limitadas. Muitas vezes, pedem comida pelo telefone. "Não é fácil", admitiu uma das pessoas na embaixada.

Nos corredores, o estilo excêntrico de Assange e de seus assistentes, que parecem ter saído de uma nova etapa do filme Matrix, se mistura com características típicas de uma repartição pública de um país sul-americano. Secretárias cantam em espanhol, estátuas de santas repousam em prateleiras de móveis de madeira, há gargalhadas generosas de funcionários e pessoas falam aos berros pelo telefone, som abafado apenas pelo barulho de um insistente aspirador de pó.

Visitas. No pequeno saguão da embaixada, decorada com uma enorme foto do presidente Rafael Correa, câmeras vigiam o local, além de um sistema de códigos nas portas de cada sala. O controle sobre as imagens é total. A embaixada não permite que fotos ou vídeos sejam feitos de suas instalações, exceto da sala onde seria realizada a entrevista. Nenhum outro assistente de Assange pode ser filmado por "questões de segurança".

Já uma lista de presença na porta da embaixada serve de termômetro da presença de Assange no local. Em dois dias de agenda, o embaixador do Equador em Londres recebeu uma visita. Assange, mais de dez. / J.C.

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