Gerard Julien/ AFP
Gerard Julien/ AFP

Hospitais dos EUA têm forte redução no uso da hidroxicloroquina contra coronavírus

Redução significativa no uso é sinal de que os médicos dos EUA não acreditam mais que o potencial benefício da droga supera os riscos

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 19h01

NOVA YORK - Hospitais dos Estados Unidos informaram ter recuado sobre o uso da hidroxicloroquina, droga contra a malária defendida pelo presidente Donald Trump como tratamento contra a covid-19, depois de vários estudos sugerirem que o medicamento não é eficaz e pode representar um risco significativo.

As esperanças iniciais a respeito do medicamento se basearam em parte em experimentos de laboratório e suas propriedades anti-inflamatórias e antivirais. Mas até agora sua eficácia não foi comprovada em testes em humanos, e pelo menos dois estudos sugerem que pode aumentar o risco de morte.

Vários hospitais que há dois meses disseram à agência Reuters que usavam hidroxicloroquina frequentemente para pacientes com covid-19 recuaram.

Os pedidos do medicamento caíram para um décimo do pico do fim de março, para cerca de 125 mil comprimidos na semana passada, disse a Vizient Inc, compradora de medicamentos para cerca de metade dos hospitais dos EUA.

A redução significativa no uso é um sinal de que os médicos dos EUA não acreditam mais que o potencial benefício da droga supera os riscos. Nesta semana, alguns governos europeus proibiram o uso de hidroxicloroquina em pacientes com covid-19.

O médico Thomas McGinn, chefe-adjunto da Northwell Health, maior sistema de saúde de Nova York, afirmou que decidiu parar de prescrever hidroxicloroquina em seus 23 hospitais em meados de abril, após surgimento de dados clínicos.

“As pessoas estavam em nossos hospitais, estavam morrendo e queríamos fazer alguma coisa”, lembrou. “Mas no minuto em que os dados foram publicados... mostrando nenhum benefício e dano potencial, acredito que todos precisávamos dar um passo atrás”, disse ele.

O Departamento de Veteranos dos EUA (VA), que tem centros médicos em todo o país, também reduziu o uso da droga à medida que outros tratamentos se tornaram disponíveis, disse o secretário do VA, Robert Wilkie, em audiência no Congresso na quinta-feira.

O VA foi um dos primeiros a sinalizar potencial aumento do risco de morte pelo uso de hidroxicloroquina em pacientes com covid-19, em abril.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

A revista médica britânica The Lancet publicou, na semana passada, uma análise de 96 mil pacientes com covid-19 mostrando que os que foram tratados com hidroxicloroquina ou cloroquina tiveram maior risco de morte e problemas no ritmo cardíaco.

Trump tem sido um defensor da hidroxicloroquina, chamando-a de “divisor de águas” desde o início. Posteriormente, ele disse que estava tomando o medicamento para prevenir a infecção, apesar de não haver evidências científicas disso, depois que pessoas que trabalhavam na Casa Branca testaram positivo para covid-19. Ele também pediu a outros que experimentassem o medicamento.

No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro é um adoroso defensor do uso da cloroquina no tratamento da covid-19.

Os defensores do medicamento como tratamento contra o coronavírus argumentam que ele pode precisar ser administrado em um estágio inicial da doença para ser eficaz. Os médicos estão aguardando estudos que possam provar isso./REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.