Hospital lotado abriga rebeldes e kadafistas

Cerca de 5 metros separam os leitos de Mohamed Hasin, de 31 anos, e Ahmed Hayadi, de 20, no superlotado Hospital Central de Trípoli. O primeiro, ferido por uma bala ainda alojada em seu abdômen, é rebelde. O segundo, que se recupera de ferimentos provocados por estilhaços, é militar kadafista. Ambos convivem lado a lado no maior centro hospitalar do país, para onde estão indo feridos e mortos dos conflitos na Líbia.

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2011 | 00h00

Segundo estimativas do Conselho Nacional de Transição (CNT), mais de 20 mil pessoas morreram desde fevereiro na mais sangrenta das revoluções em curso no mundo árabe. Parte das vítimas - de ambos os lados - está registrada em uma lista de cerca de uma centena de linhas pregada em um pilar na entrada do Hospital de Trípoli, o mesmo em que trabalhava Hana, a filha de Muamar Kadafi, até o último domingo.

Nas salas de trauma, uma multidão se aglomera à espera de atendimento. O chão está manchado de sangue e tem uma fina camada de água barrenta. Enquanto espera para se submeter a uma operação para retirar o projétil, alojado próximo do pulmão, Hasin caminha pelos corredores e conta histórias do front. Mostra a foto do cadáver de seu irmão mais jovem, Osama, de 30 anos, morto há dois meses em Trípoli. E um vídeo que fez de outro corpo, o de seu algoz, um militar, franco-atirador.

Apesar de tanta violência, ele está animado e seu discurso é otimista. "Estou muito feliz", afirma, arriscando poucas palavras em inglês. "Meu país se livrou de Kadafi. A Líbia é muito rica, mas cheia de pessoas estúpidas. Kadafi era o mais estúpido deles e vivia cercado de estúpidos."

O rebelde não parece se incomodar com a presença de Hayadi, ferido em combate em uma fazenda do oeste da Líbia, próxima a Nalut. O jovem soldado, leal ao ditador, agora lamenta o conflito e diz que seu país ficará melhor sem o ditador. "Não gosto de Kadafi, mas o Exército era o meu trabalho", justificou. "Peço a Deus para puni-lo."

Cercado de apoiadores da revolução e em uma cidade controlada por rebeldes, Hayadi diz ser bem tratado. "Agradeço aos rebeldes e aos médicos pelo tratamento", disse.

Hayadi não é o único no Hospital de Trípoli com passagem pelas forças leais a Kadafi. O cirurgião Jamel, de 46 anos, diz que eles chegam às dezenas. "Muitos creem que esta é uma guerra do Ocidente contra a Líbia, ou de invasores externos contra o povo, ou de cristãos contra muçulmanos", conta. "Em geral, os kadafistas têm baixa instrução. Eles temem que o país se deteriore sem Kadafi."

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