Reprodução/TV WBNS
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Hospital nega transplante de rim a paciente não vacinado nos EUA

Chad Carswell, de 38 anos, faz diálise e só tem 4% dos rins funcionando, mas se nega a tomar vacina contra o novo coronavírus para receber transplante

Julian Mark, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2022 | 12h13

Por mais de quatro anos, Chad Carswell, de 38 anos, sofreu com doença renal grave. Em julho de 2020, ele começou a fazer diálise - mas agora seus rins estão funcionando com apenas 4%.

Em entrevista ao The Washington Post, Carswell disse que recentemente solicitou um transplante de rim, mas foi recusado porque não recebeu uma vacina contra o coronavírus. E, apesar das exigências de seu hospital de que os receptores de órgãos sejam vacinados contra o vírus, ele está recusando as injeções.

Carswell, da cidade de Hickory, na Carolina do Norte, reconheceu que sua condição é uma “bomba-relógio” e disse que está vivendo todos os dias como se fosse o último. Ainda assim, ele não tomará uma vacina contra o coronavírus - mesmo que isso signifique perder um transplante potencialmente salvador.

“Não há uma situação neste mundo em que eu receba uma vacina”, disse ele ao Post. “Se eu estiver no meu leito de morte e eles me disserem: 'Você tem um rim esperando por você se você tomar essa injeção', eu direi a eles: 'Vejo você do outro lado'”.

Carswell não é a única pessoa não vacinada em uma lista de espera de transplante a ter um órgão negado. Na semana passada, a família de D.J. Ferguson disse que um hospital de Massachusetts lhe negou um transplante de coração porque ele se recusou a tomar uma vacina contra o coronavírus, informou a Associated Press. Em outubro, um hospital do Colorado disse que negaria um transplante de rim a uma mulher, a menos que ela fosse vacinada contra o coronavírus.

Nos dois casos, os hospitais citaram políticas que exigem que todos os receptores de transplantes sejam vacinados por causa de pesquisas que mostram que esses pacientes correm maior risco de morrer de covid-19. Estudos estimam a taxa de mortalidade de pacientes transplantados que contraem covid em cerca de 20 a 30%.

O Brigham and Women's Hospital de Boston, que recentemente recebeu críticas por negar o transplante de coração de Ferguson por causa de seu status de vacinação, disse em comunicado que há mais de 100 mil pacientes esperando por órgãos, e cerca de metade não recebeu em cinco anos.

“Dada a escassez de órgãos disponíveis, fazemos tudo o que podemos para garantir que um paciente que recebe um órgão transplantado tenha a maior chance de sobrevivência”, disse o hospital. Também citou orientações da Sociedade Americana de Cirurgiões de Transplantes e outras organizações que recomendam que os pacientes recebam vacinas contra o coronavírus antes de serem submetidos a transplantes.

O Atrium Health Wake Forest Baptist, o hospital onde Carswell esperava receber seu transplante, se recusou a comentar o caso. Em comunicado ao Post, uma porta-voz disse que a política de vacinas do hospital visa proteger os pacientes transplantados, que correm alto risco de doenças graves por covid.

[Nossa] política segue o padrão atual de atendimento nos Estados Unidos, que é vacinar todos os pacientes em lista de espera ou sendo avaliados para transplante”, dizia o comunicado, que acrescentou: “Entendemos que alguns pacientes podem não querer ser vacinados. Nesse caso, os pacientes podem optar por serem avaliados em outro centro de transplante.”

Carswell disse ao The Post que tem um longo histórico de problemas de saúde. Depois que ele foi diagnosticado com diabetes tipo II, ele conta que desenvolveu infecções e outras complicações nas pernas, as quais tiveram que ser amputadas. Ele teve covid duas vezes, disse ele - uma vez em novembro de 2020 e novamente em setembro passado, o que o levou ao hospital por um curto período de tempo.

Nos últimos quatro anos e meio, Carswell lutou contra a doença renal em estágio 4 e fez diálise em 2020, quando sua função renal começou a declinar rapidamente. Nos últimos meses, ele está procurando um novo rim e encontrou várias pessoas dispostas a fazer a doação.

Foi apenas em uma consulta há cerca de três semanas, disse ele, que um médico lhe disse que precisava de uma vacina contra o coronavírus para ser elegível para um transplante. O médico também lhe disse que seu doador de rim também precisaria ser vacinado.

Isso foi um problema para Carswell, que disse que não quer ser forçado a se vacinar. Ele acrescentou que não acredita em teorias da conspiração, mas continua cético sobre como elas foram desenvolvidas.

As vacinas contra o coronavírus passaram por rigorosas revisões de segurança e são eficazes na prevenção de doenças graves e mortes. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos recomendam que qualquer pessoa com mais de 5 anos seja imunizado.

Mas para Carswell, ser vacinado se resume a uma escolha pessoal.

“Trata-se de defender nossos direitos e entender que temos uma escolha”, disse ele.

Carswell disse que sabe que, ao se recusar a ser vacinado, o rim do doador de que ele precisa desesperadamente permanecerá fora de alcance. Mas ele disse que está disposto a aceitar as consequências, mesmo que isso lhe custe a vida.

“Nasci livre”, acrescentou Carswell. “Eu vou morrer livre.”

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