Hostilidade chinesa afasta estrangeiros

Obter cidadania da China é quase impossível mesmo para quem nasce ou tenha bens no país

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h04

A China tem a segunda maior economia do mundo, investe pesado na expansão do seu Exército e é vista como o maior desafio à posição dominante dos EUA no século 21. Mas o poder emergente se diferencia em um elemento crucial da atual superpotência: enquanto imigrantes podem se tornar americanos, é impossível para um estrangeiro obter a cidadania chinesa, ainda que tenha nascido no país ou possua propriedades em solo local.

"Nós somos sempre tratados como visita", disse a brasileira Raquel Martins, que chegou à China com 10 meses de idade e passou 42 de seus 48 anos de vida no país. A barreira intransponível causa frustração e insegurança entre os que elegeram a nação como lar e pode representar um obstáculo aos esforços de Pequim para ser um país inovador e construir algo que seja comparável a um soft power - a capacidade de levar o outro a querer o que você quer sem o recurso à coerção.

No início do mês, o empresário britânico Mark Kitto, de 45 anos, provocou rebuliço na comunidade de expatriados local com o artigo "Você nunca será chinês - Por que eu estou deixando o país que eu amava". Casado com uma chinesa e com dois filhos que nasceram no país, Kitto vive há 16 anos em Xangai e está prestes a se mudar para a Inglaterra com a família.

As razões que levaram à decisão incluem a frustração com a ausência de reformas políticas, a insegurança provocada por um regime de partido único e a ideologia que separa os chineses ("nós") dos estrangeiros ("eles").

A desconfiança em relação aos forasteiros tem profundas raízes na história da China, mas ganhou ênfase com a chegada do Partido Comunista ao poder em 1949, na avaliação de Kitto. A narrativa oficial construída desde então alimenta a ideia de vitimização dos chineses pelas potências ocidentais e o Japão no período que vai da Guerra do Ópio (1839-1842) à Revolução Comunista. "Os chineses ouvem constantemente que devem se sentir injustiçados em relação ao que os estrangeiros fizeram a eles, e o partido promete obter vingança em seu nome", escreveu Kitto.

De tempos em tempos, o governo renova a hostilidade aos "bárbaros" com campanhas propagandísticas. A mais recente teve início em junho e tem por alvo estrangeiros que estão no país de maneira irregular.

A brasileira Elisângela Ferreira da Silva, de 25 anos, foi detida em Xangai no dia 3 por ter permanecido na China depois do vencimento de seu visto de estudante. Ela teve de cumprir pena de detenção de 10 dias por ter ignorado a notificação de que estava em situação irregular e deveria deixar o país.

A equipe da TV estatal alemã ARD experimentou a hostilidade de maneira mais aterrorizante no dia 11, quando realizava reportagem sobre poluição na Província de Henan.

'Espionagem'. Seguranças da fábrica de produtos químicos Do-Fluoride detiveram os jornalistas quando eles faziam imagens externas do local. Em seguida, a equipe foi cercada por operários, que ouviram dos administradores da empresa a falsa informação de que eles eram espiões em busca de segredos comerciais.

Os repórteres permaneceram nove horas na fábrica, durante as quais os trabalhadores gritavam "morte aos espiões estrangeiros". Só conseguiram sair quando uma equipe da polícia de elite chegou e os escoltou para fora do local.

Casada com o finlandês Matti Lehtonen, a brasileira Raquel Martins disse que há um sentimento de decepção entre os estrangeiros que vivem desde a infância na China. "Nós crescemos aqui e nossos pais contribuíram para o país", ressaltou. Ainda assim, ela tem de renovar todos os anos seu visto de residente e só tem permissão para estar na China porque seu marido tem emprego fixo no país.

"Há uma barreira intransponível para os estrangeiros se integrarem à sociedade local", ressaltou Raquel, filha do jornalista Jayme Martins, que se exilou na China depois do golpe de 1964.

Fundador da consultoria BDA, especializada em tecnologia e internet, o britânico Duncan Clark acredita que a visão restritiva de cidadania na China pode representar um limite ao desenvolvimento do país no longo prazo.

Em Pequim há 18 anos, Clark lembra que imigrantes desempenham um papel vital na criação de novas companhias no Vale do Silício - o coração tecnológico dos EUA. "A China vê a si própria em termos muito mais raciais, como uma nação com mais base na etnia, do que os EUA, o Brasil ou a Inglaterra", afirmou.

No livro China Airborne, o jornalista americano James Fallows observou que a emergência chinesa se distingue do domínio ocidental por ser marcada pela concepção de "não universalidade". Em sua opinião, a ideia de que os chineses se contrapõem aos não chineses pode minar os esforços de Pequim de influenciar o restante do mundo.

"Se uma sociedade pensa que é única em razão de seu sistema, de seu estilo, ou de seus padrões, é fácil para ela exercer o soft power, porque os que estão fora podem se imaginar participando do mesmo sistema e adotando os mesmos padrões", escreveu. "Mas se ela pensa que é única em virtude de sua identidade 'a China é bem-sucedida porque nós somos chineses' - o apelo aos demais é autolimitado."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.