Demetrius Freeman/NYT
Demetrius Freeman/NYT

Hotel de luxo em Nova York passa a abrigar médicos e enfermeiros

Profissionais da saúde se mudam para não colocar famílias em risco; proximidade de hospitais também está entre os motivos

Alyson Krueger, The New York Times

09 de abril de 2020 | 04h00

NOVA YORK - Poucas semanas atrás, era comum que assistentes pessoais ligassem para fazer reservas para seus chefes nos quartos de mil dólares no Four Seasons Hotel New York.

Mas, no final de março, a norma se tornou mães preocupadas ligando para conseguir um quarto de graça para seus filhos médicos. O icônico hotel dos bilionários acabara de anunciar que iria abrigar profissionais de saúde no combate ao coronavírus.

“Acho que minha mãe foi uma das primeiras a ligar”, disse um médico de 31 anos, cujo hospital pediu que permanecesse anônimo. Ele morava em Long Island e viajava duas horas para trabalhar em Manhattan. Agora está a 20 minutos a pé do hospital.

“Nunca fiquei num quarto de hotel tão bonito na vida”, disse ele. “No meio do meu turno, quando as coisas estão ficando caóticas e ainda tenho oito horas pela frente, é muito bom lembrar que tenho um lugar para ficar bem perto e lindo”. Ele deve ficar no Four Seasons por 25 dias.

Reminiscências do luxuoso passado do hotel – o hall de entrada de inspiração art déco, o teto de ônix no saguão principal, as enormes banheiras das suítes – são detalhes extravagantes agora que o hotel de cinco estrelas foi convertido em algo semelhante a um quartel militar.

“Não é mais um hotel”, disse o Dr. Robert Quigley, vice-presidente e diretor médico da International SOS, uma empresa de serviços médicos e de seguros de viagens, que supervisiona os novos protocolos do hotel. “É a base para uma população de alto risco”.

Assim como o Central Park e o USTA Billie Jean King National Tennis Center, em Flushing, Queens, o Four Seasons é mais um marco da cidade de Nova York que está sendo adaptado para combater a pandemia.

Embora outros hotéis da cidade estejam ajudando a contornar a falta de leitos hospitalares, o Four Seasons se dedica exclusivamente a deixar médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde bem descansados e seguros.

Na entrada, duas enfermeiras usando máscaras N95 medem a temperatura de todos os hóspedes e perguntam sobre sintomas nas últimas 72 horas e se lavaram bem as mãos. Uma vez lá dentro, os hóspedes vão direto para seus quartos; não tem bar nem restaurante. Os elevadores transportam apenas um passageiro de cada vez; os demais devem esperar em cima de marcas gravadas no chão, a uma distância de dois metros uns dos outros.

Dos 368 quartos do hotel, apenas 225 receberão hóspedes, para limitar a aglomeração no edifício.

Os hóspedes e a equipe do hotel não interagem mais. Para o check-in, as chaves são colocadas em envelopes em cima de uma mesa. Os minibares foram retirados dos quartos. A limpeza é uma comodidade do passado; os quartos têm lençóis e toalhas extras.

Os itens sujos são coletados somente depois que os hóspedes, que ficam por um período mínimo de sete dias, fazem o check-out e o quarto é desinfetado. As camas não têm mais travesseiros decorativos, que podem espalhar germes. Nas mesas de cabeceira já não há chocolates, mas sim um frasco de desinfetante para as mãos.

Foi um rearranjo geral. “Um dos gerentes do hotel ficou muito chateado. Ele perguntou: ‘Onde vamos servir o café?’”, contou Quigley, agora conhecido pela equipe do Four Seasons como Dr. Q. “E eu respondi: ‘Não vai ter café. Temos que mudar esse hábito’”.

(Cafeteiras podem ser colocadas em todos os quartos, mediante solicitação. O hotel também oferece almoços em caixas de delivery.)

A ideia de reformular o Four Seasons veio do proprietário do hotel, Ty Warner. Ele sabia que seria difícil. E comparou a tarefa à abertura de um novo hotel.

“Minha boca ficou seca quando recebi a ligação”, disse Rudy Tauscher, gerente geral do Four Seasons.

Mas o hotel ainda estava despreparado para o que aconteceu depois que Warner e o governador Andrew M. Cuomo anunciaram que o Four Seasons seria reaberto para profissionais de saúde. Milhares de médicos e enfermeiros inundaram as linhas telefônicas. “Sobrecarregaram totalmente os sistemas em operação”, disse Greg Scandaglia, advogado de Warner.

Poucas das primeiras pessoas que ligaram, como a mãe do médico de Long Island, conseguiram reservar um quarto.

A Dra. Dara Kass, médica de pronto-socorro, mudou-se de sua casa em Park Slope, Brooklyn, para o hotel na East 57th Street porque um de seus filhos tem baixa imunidade. Ela ficou chocada com o que encontrou. “Quando você entra no hotel, encontra os mesmos procedimentos que quando entra no hospital”, disse ela. “É impressionante”.

Para ela, essa tentativa de mitigar o risco de infecção é o maior luxo. “Você pode voltar de um plantão no pronto-socorro e mesmo assim se sentir segura”, disse ela. “Para mim, é isso o que mais importa”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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